Em 2019, o início das atividades do Instituto Novas Histórias em Cipó, localizado no sertão da Bahia, foi simbolicamente marcado pela descoberta de uma bíblia enterrada a trinta metros de profundidade em solo quilombola.
Esse ato representava um prenúncio do que estava por vir: uma abordagem organizada de evangelização neopentecostal, reinterpretação da história e apagamento cultural em áreas habitadas por comunidades quilombolas reconhecidas oficialmente pelo Brasil.
A investigação realizada pela Carta Capital, com colaboração da Agência Pública, revela que o instituto estabeleceu uma parceria com a Brasil Paralelo para implementar o projeto ‘Conexão Sertão’. Esta ação distribuiu mais de dez mil acessos gratuitos a documentários e cursos da plataforma em diversas localidades do Nordeste, culminando em um evento presencial em Cipó, que contou com pregações, palestras e apresentações de música gospel.
A Brasil Paralelo, produtora de conteúdo audiovisual criada em 2016, é considerada um dos principais canais de disseminação de ideias da extrema direita no Brasil. O projeto ‘Conexão Sertão’ foi oficialmente lançado em dezembro de 2025.
O Instituto é de propriedade do empresário Markenson Marques, de 61 anos, natural de Curitiba e atuante no setor de transportes. Sua empresa possui um capital social avaliado em R$ 32 milhões e uma receita bruta superior a R$ 460 milhões.
Com forte alinhamento ao bolsonarismo, Marques utiliza os veículos de sua frota em eventos políticos e caracteriza o instituto como um ‘ministério familiar’. Ele afirma destinar 12% dos lucros da sua transportadora para essa iniciativa.
Atualmente, a ONG atende cerca de 500 jovens na região de Cipó, muitos dos quais vêm das comunidades quilombolas Rua do Jorro, Caboja e Várzea Grande — áreas que receberam titulação em 2005 e abrigam aproximadamente 300 famílias, conforme dados da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAC). A influência do instituto na região foi suficiente para que ele se tornasse parte do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente da cidade, situada a 250 km da capital baiana.
Entre as instalações do instituto destaca-se uma piscina denominada ‘batistério’, onde alunos — muitos deles negros quilombolas — são batizados após se converterem ao protestantismo. Além disso, semanalmente o instituto promove sessões de cinema com exibições das produções da Brasil Paralelo.
Os documentários apresentados incluem títulos como ‘A face oculta de Nelson Mandela’, que relaciona o líder sul-africano à violência e ao comunismo, e ‘1964: o Brasil entre armas e livros’, que defende a narrativa revisionista segundo a qual o golpe militar foi uma ‘revolução’ contra o comunismo.
Dois professores de história das redes pública municipal e estadual de Cipó relataram à reportagem que utilizam materiais da Brasil Paralelo nas aulas após terem acesso gratuito ao conteúdo através do projeto. Um deles, conhecido como Alexandre, mencionou exibir o documentário sobre 1964 aos seus alunos como forma de contestar o que considera ser ‘doutrinação esquerdista’ presente nos livros didáticos.
O outro educador citado na matéria, identificado como Antônio, levantou críticas à figura histórica de Antônio Conselheiro — líder da comunidade Canudos, massacrada pelo Exército Brasileiro em 1896 com milhares de mortos civis. “Ele era um louco”, declarou Antônio, ecoando uma visão similar àquela promovida pela Brasil Paralelo, que já classificou os falecidos nesse conflito como ‘revoltosos’ e até associou a Guerra de Canudos às violências observadas nas favelas cariocas.
Na opinião do professor Daniel Faria, especialista em história na Universidade de Brasília (UnB), a introdução desse tipo de conteúdo revisionista na formação dos jovens compromete objetivos educacionais fundamentais. “Negar a ditadura militar enfraquece a relevância da democracia; isso sugere que não há diferença significativa entre democracia e ditadura”, analisou Faria. Ele acrescentou: “Para compreender o Brasil atual é essencial explorar as lições do passado.”
No âmbito espiritual e filantrópico, Marques expressa visões ainda mais controversas. Durante um evento realizado em São José dos Pinhais (PR) em junho de 2025, ele concordou com uma participante que afirmava ter sido seu instituto responsável por afastar ‘forças espirituais malignas’ da cultura quilombola local.
A mulher afirmou: “Naquele terreno foram destronadas forças espirituais malignas. Sabemos que comunidades quilombolas praticam muita magia negra.” A resposta imediata de Marques foi: “Verdade”.
Em suas palestras pelo país afora, ele também reproduziu estereótipos negativos sobre políticas sociais. Contou uma experiência em que teria encontrado todos os homens alcoolizados em uma comunidade quilombola beneficiada pelo Bolsa Família. Além disso, alegou que uma moradora incentivava suas filhas a engravidar para obter benefícios federais — sem apresentar qualquer evidência para tais afirmações.
A pesquisadora Fátima Tavares, professora no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), alerta sobre os perigos associados a esse processo. “Os espaços quilombolas carregam uma densa memória histórica. As experiências vividas nessas comunidades podem levar os jovens quilombolas evangélicos ao não reconhecimento das suas raízes ancestrais”, destacou Tavares.
Líderes comunitários quilombolas consultados pela reportagem reconheceram a importância social do instituto na área; no entanto, expressaram repúdio ao negacionismo histórico e à intolerância religiosa promovidos pela entidade. O temor por represálias dentro da própria comunidade levou-os a optar pelo anonimato.
Entre 2010 e 2022, segundo dados do IBGE, a Bahia apresentou um aumento significativo de 42,7% no número de pessoas identificadas como evangélicas. Simultaneamente, o estado abriga a maior população quilombola do país, correspondendo a 29,9% dos brasileiros autodeclarados dessa forma. Essa intersecção entre crescimento evangélico e territórios quilombolas torna o fenômeno missionário um processo com profundas implicações culturais e políticas.
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