A previsão ultrapassa a receita total do setor no primeiro semestre e é considerada um limite, sem levar em conta a possibilidade de usuários migrarem para plataformas ilegais; embora o Pix já tenha apresentado queda, o Banco Central solicita mais tempo para avaliar os impactos da nova medida.
Estima-se que a proibição das apostas online possa redirecionar anualmente até R$ 40 bilhões para as finanças familiares, com potencial impacto no consumo, na poupança e no pagamento de dívidas. Essa análise foi realizada com base em dados da Secretaria de Prêmios e Apostas, ligada ao Ministério da Fazenda. No primeiro semestre de 2026, o mercado regulado de apostas de quota fixa registrou uma receita bruta de R$ 20,2 bilhões e, se essa tendência continuar, espera-se que o ano termine com aproximadamente R$ 40,4 bilhões. Esse valor representa as perdas líquidas dos jogadores, o que corresponde a cerca de R$ 110 milhões diariamente e R$ 770 milhões semanalmente.
Esse montante é significativo o suficiente para ser utilizado como argumento político. Entretanto, é importante compreender sua natureza. Trata-se de uma extrapolação linear baseada em seis meses, assumindo que a tendência atual persista, e representa um teto, uma vez que a própria análise ressalta que não considera uma possível transferência de apostadores para sites clandestinos. Além disso, não se trata de um dinheiro que automaticamente contribuirá para gastos, poupança ou quitação de dívidas; o texto não quantifica a receita pública gerada pelo setor. Conforme apontado por O Cafezinho, esse cálculo reflete o quanto os cidadãos perderam financeiramente e não necessariamente indica o retorno desse valor à economia.
Os primeiros indícios mostram uma diminuição nas transações via Pix nas casas de apostas; no entanto, são apenas sinais iniciais. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, declarou na última sexta-feira (2) que tanto o Banco Central quanto as instituições financeiras notaram essa queda e sugeriu que esses recursos estão sendo realocados para outros setores. Um especialista do Banco Central, que preferiu permanecer anônimo, afirmou que a proibição parece ser a explicação mais lógica para essa redução inicial; contudo, será necessário um período mais extenso para desvincular os efeitos dessa medida das flutuações sazonais do sistema de pagamentos. As análises preliminares das instituições financeiras também apresentam divergências; segundo o ministro, a movimentação diária nas plataformas caiu para zero após a implementação da medida provisória, estimada anteriormente em cerca de R$ 600 milhões.
O setor afetado era considerável: contava com 84 operadores licenciados e 196 marcas diferentes, com predominância masculina entre os usuários (68,84%) e maior concentração na faixa etária de 31 a 40 anos (29,07%). A medida provisória foi publicada em 25 de setembro e os sites e aplicativos foram desativados em 6 de outubro. As primeiras autorizações formais foram concedidas em dezembro de 2024 após a regulamentação aprovada pelo Congresso em 2023. O governo está elaborando um projeto para criminalizar essa prática com penas que podem chegar até seis anos de prisão.
Politicamente, a proibição se tornou um tema central no segundo turno das eleições. Lula incorporou essa pauta à sua campanha e uma pesquisa Datafolha realizada em 1º de outubro revelou que 78% dos entrevistados apoiam o fim das apostas e cassinos online. Apesar disso, membros da campanha reconhecem que essa decisão pode ter causado desgaste político, especialmente devido à mobilização contrária promovida por influenciadores digitais. Flávio Bolsonaro criticou a medida chamando-a de “populista, hipócrita e eleitoreira”, afirmando ainda que “o Lula é o pai do tigrinho”.
A controvérsia chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). A Associação Nacional de Jogos e Loterias juntamente com o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável questionaram a validade da proibição alegando mudanças abruptas nas regras e prejuízos bilionários para empresas que investiram com base nas normas anteriores. O ministro Luiz Fux requisitou informações ao governo no prazo máximo de 72 horas. Em defesa da manutenção da proibição, a Advocacia-Geral da União citou movimentações ilícitas estimadas em R$ 7 bilhões através das plataformas clandestinas. As empresas afetadas também planejam atuar no Congresso visando revogar a medida provisória.
