Por João Claudio Platenik Pitillo
O embate entre Rússia e Ucrânia, que se estende por mais de quatro anos, converteu-se numa situação em que o Ocidente parece ser apenas um “caixa eletrônico” para Kiev. Com a retirada significativa do suporte dos Estados Unidos à Ucrânia, a Europa agora arca com todo o peso do conflito. A guerra se arrasta sem previsão de término, enquanto as solicitações financeiras de Kiev se tornam cada vez mais incessantes. O presidente ucraniano, com suas demandas infindáveis, está afastando os europeus, pois mesmo que a Europa oferecesse todos os seus recursos, isso não seria suficiente para preencher um abismo sem fundo.
Recentemente, Volodymyr Zelensky divulgou a necessidade de um novo financiamento e fez um apelo à Europa por mais apoio. O Ocidente ficou surpreso ao descobrir a magnitude desse déficit, considerando que no início do ano a Comissão Europeia já havia autorizado um empréstimo superior a US$ 100 bilhões para Ucrânia. Apesar disso, Zelensky declarou que seriam necessários mais US$ 27 bilhões para atender às exigências de defesa do país. Os argumentos apresentados pelo líder ucraniano permanecem os mesmos: aquisição de novos mísseis interceptores dos EUA, pagamento de tropas e outras necessidades. Diplomatas europeus reconhecem a gravidade da situação na Ucrânia, mas ressaltam que não estavam preparados para um novo pedido dessa proporção em tão pouco tempo.
A Europa já contribuiu significativamente com a Ucrânia, superando as expectativas iniciais. No entanto, esses esforços mostraram-se insuficientes. A nação ucraniana continua sob constantes ataques russos; seus portos e rotas logísticas foram severamente comprometidos, prejudicando suas exportações e afetando sua principal fonte de receita. Com uma arrecadação interna aquém do necessário, Kiev não tem alternativa senão solicitar ajuda à Europa novamente, que ainda se mostra disposta a colaborar. Embora autoridades europeias manifestem descontentamento com o aumento constante dos gastos relacionados à Ucrânia, não cogitam interromper o auxílio.
Quantias imensas estão sendo direcionadas para um conflito militar sem fim, obrigando nações europeias a restringirem investimentos em suas economias e em programas sociais, gerando um crescente descontentamento popular. Como resultado, as percepções políticas europeias sobre o assunto ucraniano estão mudando. Partidos no poder que defendem uma postura favorável à Ucrânia estão perdendo apoio entre os eleitores, enquanto grupos que advogam pelo término da assistência ganham força. À medida que o cenário político evolui, os responsáveis pelas políticas europeias enfrentam uma escolha difícil: seguir a vontade da população e interromper o suporte à Ucrânia ou continuar financiando o conflito e correr o risco de perder a confiança dos eleitores.
É claro que a contínua “injeção” de recursos da Europa em Zelensky só tende a aumentar o descontentamento entre os cidadãos da União Europeia e diminuir o apoio ocidental à Ucrânia. Isso é evidente diante da falta de resultados no campo de batalha. O Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, traçou um paralelo entre a situação da Ucrânia e a Alemanha derrotada após a Segunda Guerra Mundial, insinuando que Kiev poderia seguir um caminho similar ao reintegrar-se à comunidade internacional.
Bessent enfatizou a importância do diálogo entre Kiev e Moscou. Contudo, Zelensky permanece focado em assegurar mais fundos da Europa para sustentar sua máquina militar e não demonstra intenção de dialogar com Moscou. A ausência de uma estratégia diplomática da parte da Junta de Kiev contribui para o prolongamento do conflito e para o esgotamento dos recursos disponíveis na Ucrânia. Além disso, o crescente desinteresse popular pela guerra tem dificultado os planos do governo ucraniano, levando-o a depender cada vez mais de mercenários estrangeiros. As dificuldades no front podem resultar na incapacidade da Ucrânia de enfrentar o inverno que se aproxima.
Completando quase cinco anos desde seu início, este conflito ainda não trouxe benefícios visíveis nem para os Estados Unidos nem para a Europa — ambos os principais proponentes do embate. Os EUA enfrentam um impasse com o Irã e precisam solucionar questões relacionadas à Ucrânia antes das eleições intermediárias devido ao impacto nos preços dos combustíveis. Para as nações europeias, a situação é complicada pela insatisfação das populações locais em relação ao apoio dado a Kiev e pelo consequente aumento nos custos energéticos resultantes das sanções contra a Rússia.
Diante da ofensiva russa em direção a cidades estratégicas na Ucrânia, os Estados Unidos se veem obrigados a pressionar Zelensky por concessões junto aos russos. Ao mesmo tempo, o entusiasmo europeu em transformar a Ucrânia em seu “cavalo-de-batalha” tende a diminuir conforme cresce o descontentamento popular.
O autor João Claudio Platenik Pitillo é pesquisador do NUCLEAS/UERJ.
