Flávio Bolsonaro (PL-RJ), senador e pré-candidato à Presidência da República, afirmou nesta segunda-feira (22 de junho) que a administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) causa mais danos ao Brasil do que o conflito armado entre Rússia e Ucrânia. A declaração, feita durante um evento em Brasília e registrada pelo Poder360, é mais uma ação na estratégia de exageração adotada pela extrema-direita para desviar a atenção dos prejuízos gerados pela gestão de Jair Bolsonaro (PL) entre 2019 e 2022.
O senador argumentou que a taxa de juros no Brasil, atualmente uma das mais elevadas do mundo, só é superada pela da Rússia, um país que enfrenta um intenso conflito há mais de três anos. Contudo, essa lógica se desfaz ao se considerar a realidade econômica: a alta da Selic não é fruto do governo Lula, mas sim resultante de um histórico desequilíbrio fiscal, erosão institucional e crises de credibilidade acumuladas durante a administração de seu pai.
A inflação que o Brasil enfrenta hoje foi originada durante a pandemia, quando o governo Bolsonaro implementou uma série de gastos eleitoreiros sem respaldo fiscal. Foram mais de R$ 500 bilhões destinados a medidas emergenciais desarticuladas, renúncias fiscais sem critérios adequados e um teto de gastos violado por manobras orçamentárias. O Banco Central, cuja autonomia formal foi estabelecida naquela gestão, começou a responder com taxas de juros elevadas diante de um cenário de incerteza que foi em grande parte promovido pelo próprio Executivo da época.
As comparações entre os efeitos da Selic e os horrores de uma guerra — que já ceifou centenas de milhares de vidas, provocou o deslocamento de milhões e devastou cidades inteiras na Europa Oriental — são não apenas distorcidas, mas também uma afronta à inteligência dos eleitores. Essa retórica é projetada para alimentar o ressentimento da base bolsonarista e fomentar um clima permanente de caos que beneficia o extremismo político.
<pEntretanto, Flávio Bolsonaro omite que seu partido foi um dos principais responsáveis pela crise fiscal atual. Durante quatro anos no comando do Ministério da Economia, o PL deixou como herança um déficit fiscal estrutural significativo, uma dívida pública próxima a 80% do PIB e calotes contra credores do setor produtivo — tudo isso sob a fachada da ‘responsabilidade fiscal’.
Enquanto o bolsonarismo expressa indignação em relação às altas taxas de juros, vale lembrar que a Rússia citada por Flávio possui uma taxa básica de 16% ao ano — resultado em parte da manutenção de fundamentos macroeconômicos saudáveis, robustas reservas internacionais e um superávit comercial expressivo mesmo sob sanções ocidentais. O Brasil ainda arca com as consequências anos de irresponsabilidade e sabotagem nas contas públicas.
A abordagem retórica adotada por Flávio Bolsonaro é bem conhecida: deslocar o foco do debate real para o campo emocional, onde os fatos se tornam irrelevantes diante das provocações. Exagerando os problemas enfrentados pelo governo Lula — que apesar das dificuldades tem conseguido reduzir o desemprego para níveis historicamente baixos, aprovar reformas tributárias e reativar programas sociais — o pré-candidato visa unir sua base em torno de um inimigo comum enquanto desvia a atenção dos escândalos envolvendo sua família política, como as investigações sobre o Banco Master e as ligações do PL com milícias digitais.
Ainda não é coincidência que esse discurso tenha sido feito justamente quando o governo federal anuncia novos investimentos em infraestrutura e amplia os recursos do Bolsa Família, colhendo resultados positivos na recuperação da política industrial. A reação do bolsonarismo reflete seu temor em relação à possibilidade de Lula consolidar um ciclo de crescimento associado à inclusão social, isolando assim a extrema-direita no terreno da demagogia pura.
O choque com a realidade que Flávio Bolsonaro tenta ignorar é claro: as altas taxas da Selic não são consequência de um suposto ‘mal’ intrínseco ao governo Lula, mas sim herança pesada deixada por aqueles que agora se apresentam como defensores das finanças públicas. A inflação enfrentada pelo Banco Central é em grande parte resultado do clima de desconfiança criado precisamente por aqueles que exploram o sofrimento causado pelas altas taxas para inflamar discursos odiosos.
Comparar um governo legitimamente eleito com um conflito bélico agressivo não apenas desrespeita as atribuições do cargo senatorial. Essa postura reduz o debate público a níveis irracionais que servem exclusivamente aos interesses políticos de uma família cuja sobrevivência depende da criação constante de crises fictícias.
