No Brasil, os fundos de índice negociados em bolsa, conhecidos pela sigla ETF, experimentaram um crescimento significativo, passando de aproximadamente R$ 50 bilhões sob gestão no final de 2024 para quase R$ 130 bilhões em julho de 2026. Esse crescimento está fazendo com que os ETFs deixem de ser um produto de nicho e se tornem uma alternativa atraente em comparação aos fundos tradicionais, renda fixa direta e carteiras de longo prazo. Essa mudança é visível na prática, já que os ETFs geralmente apresentam taxas mais baixas devido à sua estrutura que replica índices e à negociação em bolsa. Além disso, no segmento da renda fixa, esses produtos oferecem vantagens operacionais e tributárias que têm influenciado a decisão de famílias, consultores e gestoras.
Em junho, a B3 (Brasil, Bolsa, Balcão) contava com 204 ETFs listados após a introdução de 29 novos produtos apenas no primeiro semestre do ano. O total financeiro alcançou R$ 126 bilhões, representando um aumento de 38,5% desde dezembro de 2025 e uma impressionante alta de 96,9% em comparação ao mesmo período do ano anterior. Renda fixa foi o motor dessa transformação
O crescimento não se restringiu apenas ao mercado acionário. Em 2026, os ETFs de renda fixa ultrapassaram pela primeira vez os seus equivalentes em renda variável em termos de patrimônio sob gestão, conforme destaca Danilo Gabriel, gestor da XP Asset. Esta classe agora representa cerca de 1% da alocação total nos fundos brasileiros.
Somente neste ano, mais de R$ 27 bilhões foram direcionados a ETFs de renda fixa, correspondendo a mais de 80% do fluxo total deste segmento. Gabriel atribui esse crescimento ao tamanho expressivo do mercado subjacente, que inclui aproximadamente R$ 4,4 trilhões em fundos de renda fixa, quase R$ 1 trilhão na poupança e cerca de R$ 3 trilhões em ativos diretos.
Nesse cenário dinâmico, até pequenas migrações podem resultar em números significativos. Os investidores que antes optavam por CDBs, Tesouro Direto ou fundos DI agora encontram na bolsa produtos vinculados a CDI e inflação com liquidez e custos menores quando comparados aos produtos tradicionais.
A Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) registrou uma captação líquida positiva de R$ 1,5 bilhão em ETFs durante julho. No acumulado do ano de 2026, o montante atingiu R$ 34,1 bilhões – o maior valor já registrado desde o início da série histórica em 2006 e um aumento significativo de 47% sobre toda a captação líquida do ano anterior. Altos juros e questões tributárias impulsionam o fluxo
Gabriel identifica três fatores principais que estão impulsionando essa aceleração. O primeiro é a crescente insatisfação com a gestão ativa dos fundos tradicionais diante das altas taxas e da dificuldade em superar consistentemente os índices benchmarks. O segundo fator é o fim dos fundos exclusivos fechados sem come-cotas, que redirecionou capital para estruturas consideradas mais eficientes do ponto de vista tributário.
O terceiro elemento é o contexto atual com juros elevados. Com CDI e taxas reais ainda atrativas, os ETFs voltados para renda fixa passaram a competir diretamente com fundos tradicionais que costumam ter taxas mais altas ou enfrentam come-cotas ou exigências operacionais mais complexas para os investidores.
Na análise feita pelo gestor, as vantagens incluem isenção do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), uma alíquota fixa de imposto sobre a renda (15%), ausência do come-cotas e liquidez imediata (D0 ou D1), sem necessidade da utilização do Documento de Arrecadação de Receitas Federais (Darf). A única exceção mencionada são os ETFs cuja composição é exclusivamente baseada em LFT.
A XP Asset estima que um ETF rendendo 100% do CDI pode superar um fundo de crédito que oferece rendimento equivalente a 107% do CDI ao longo do tempo devido à combinação favorável entre tributação e operacionalidade. Este cálculo interno da gestora não elimina riscos associados a cada produto individualmente mas ajuda a entender porque a renda fixa se tornou uma força propulsora dentro da indústria.
Crescimento ainda enfrenta limitações
A comparação com o mercado americano é animadora para investidores brasileiros; no entanto, existem limitações claras nesse cenário. No Brasil, os ETFs representam cerca de apenas 1% da indústria total de fundos enquanto nos Estados Unidos essa proporção supera os 30%.
Gabriel ressalta que replicar o modelo americano não ocorrerá automaticamente. As diferenças no tratamento tributário são significativas; no Brasil as isenções são aplicáveis dentro das estruturas dos fundos enquanto nos EUA há distinções importantes entre mutual funds e ETFs.
Outro fator limitante é o acesso direto dos brasileiros aos ETFs estrangeiros, o que reduz o fluxo potencial que poderia ser direcionado aos produtos locais. Além disso, a previdência privada – especialmente o VGBL – compete como uma alternativa tributária viável para investimentos no longo prazo.
Apesar disso tudo, observa-se que as mudanças na distribuição vão além das tendências passageiras do mercado. O foco começa a se deslocar do produto isolado para estratégias mais integradas na composição das carteiras com blocos acessíveis e líquidos.
Custos baixos desafiam a gestão ativa
A recente atividade na XP Asset reflete uma competição intensa quanto às taxas cobradas pelos serviços financeiros. A gestora lançou um ETF prefixado com taxa administrativa anual reduzida para apenas 0,15%, assim como um ETF focado em small caps com taxa anual fixada em 0,30%, ambas abaixo da média atual da indústria próxima dos 0,5%.
A lógica por trás dessa estratégia baseia-se na escala: um ETF deve acompanhar rigorosamente um índice sem necessitar manter grandes equipes dedicadas à análise para escolher ativos vencedores. “Quanto maior for meu volume gerido, menos preciso aumentar minha equipe proporcionalmente”, afirma Gabriel.
O BOVX – ETF vinculado ao Ibovespa da XP Asset – oferece taxa zero até alcançar R$ 1 bilhão sob gestão e aumenta gradualmente as tarifas conforme seu patrimônio cresce. No caso do XCAP – ETF voltado para small caps –, houve uma mudança na metodologia de rebalanceamento visando suavizar as transições entre empresas nos índices pequenos e grandes.
Análises retrospectivas realizadas pela própria XP Asset desde 2015 indicam que tal mudança poderia ter proporcionado um retorno adicional médio anualizado de até 2,5%, totalizando cerca de 60% ao longo desse período; contudo esse dado não garante resultados futuros aos investidores.
Modelo fee-based depende da oferta acessível
A ascensão dos ETFs também está interligada ao modelo fee-based onde clientes pagam uma taxa fixa pela consultoria ao invés das comissões embutidas nos produtos financeiros. Para Gabriel essas duas evoluções estão interconectadas.
<p“Para que o modelo fee-based funcione adequadamente é necessário contar com produtos acessíveis que sejam líquidos e escaláveis; isso define quase perfeitamente o conceito essencial dos ETFs”, explica ele. Sem uma ampla gama desses produtos simples e baratos disponíveis no mercado fica mais difícil competir contra modelos baseados em comissão.
Tais transformações impactam diretamente nos incentivos oferecidos pelo mercado: produtos caros ou pouco líquidos tendem a ficar em desvantagem quando investidores conseguem comparar facilmente taxas praticadas junto às opções indexadas disponíveis.
Gabriel esclarece ainda que não vê os ETFs como uma ameaça generalizada à gestão ativa; a pressão se concentra principalmente sobre gestores que cobram elevados honorários sem oferecer retornos superiores aos índices benchmarks. Para os investidores comuns isso resulta diretamente em maior concorrência nas taxas cobradas e mais alternativas disponíveis para compor suas carteiras sem depender exclusivamente dos fundos caros como entrada inicial.
Diante desse superciclo observado na indústria ainda persiste uma questão central: embora tenha dobrado seu tamanho num curto espaço temporal superior a um ano será necessário demonstrar se conseguirá converter essa captação recorde em liquidez sustentável ao longo do tempo oferecendo diversidade real nos produtos disponíveis além da redução efetiva nos custos para quem investe fora dos grandes grupos financeiros.
