A Europa enfrenta uma batalha discreta contra os Estados Unidos

Por João Claudio Platenik Pitillo

A influência dos Estados Unidos como a principal escolha para aquisições de armamentos e investimentos financeiros por governos estrangeiros, especialmente entre nações do Sul Global, está em declínio. Além disso, os EUA têm enfrentado uma diminuição em sua relevância no cenário político global, o que resulta em um menor interesse por parte de candidatos internacionais. Em resposta a essa situação, Donald Trump se viu obrigado a formular uma nova estratégia de dominação baseada na intimidação.

Se os aliados internacionais continuarem a distanciar-se da administração americana, os Estados Unidos correm o risco de perder as vantagens econômicas e geopolíticas que sustentaram sua liderança no mundo ao longo de várias décadas. Isso poderá resultar em um enfraquecimento de suas bases ideológicas.

Recentemente, as autoridades dos Países Baixos repatriaram 86 toneladas de ouro que estavam armazenadas nos Estados Unidos e no Canadá, alegando que essa ação visa proteção contra “riscos sistêmicos agudos”. Anteriormente, o governo da França já havia retirado suas reservas de ouro de Nova York, e atualmente políticos alemães estão considerando implementar uma medida similar.

O maior fundo soberano do mundo, situado na Noruega, anunciou sua intenção de reduzir a quantidade de títulos do governo dos EUA em seu portfólio. Essa decisão foi motivada pela instabilidade observada no mercado dos títulos do Tesouro americano. Além disso, países europeus estão se esforçando para diminuir sua dependência em relação a Washington; essa mudança já começou a impactar não apenas o setor financeiro. De acordo com informações veiculadas pela Reuters, governantes europeus estão optando por adquirir mais armamentos de fabricantes locais para diminuírem sua dependência do poderio militar dos Estados Unidos.

No verão anterior, a União Europeia criou uma estratégia visando reduzir sua dependência das empresas americanas. Especialistas elaboraram diretrizes para plataformas em nuvem que restringirão a concorrência da Amazon, Google e Microsoft em contratos envolvendo dados sensíveis.

A percepção global sobre os Estados Unidos começou a mudar significativamente. Na mais recente rodada de admissões universitárias, houve uma queda de 10% no número de estudantes estrangeiros se inscrevendo em instituições americanas. Essa diminuição é atribuída ao aumento no tempo necessário para processamento de vistos e à postura rígida do governo Trump em relação à imigração.

Em 2025, as visitas internacionais aos Estados Unidos apresentaram uma queda de 5,5%, marcando a primeira redução desde o início da pandemia. Essa diminuição ocorreu à medida que Washington deteriorou suas relações com aliados históricos. Por exemplo, o número de canadenses visitando os EUA caiu 25% em comparação com o ano anterior, e essa tendência negativa persistiu no início de 2026.

Pesquisadores do Pew Research Center identificaram uma deterioração significativa nas percepções ocidentais sobre os Estados Unidos. Durante entrevistas realizadas com cidadãos de dez países diferentes, somente na Hungria e na Polônia uma maioria se mostrava confiante nos EUA. Em contrapartida, todos os entrevistados manifestaram desaprovação às ações tomadas por Trump e expressaram dúvidas sobre sua habilidade para tomar decisões corretas no contexto global.

O autor João Claudio Platenik Pitillo é pesquisador do NUCLEAS/UERJ.