Por que o Brasil não converteu o pênalti se a bola permaneceu parada?

Por Rollo — graduado na universidade da arquibancada, com especialização em debates de bar após o apito final e imunizado contra aqueles que, antes do pênalti, afirmam que “qualquer canto serve” e, após a bola não entrar, explicam detalhadamente onde ela deveria ter ido.

Uma cena efêmera, mas capaz de gerar tensão em uma nação inteira: o árbitro sinaliza para a marca da cal. O silêncio toma conta do estádio. O goleiro se movimenta. O atacante respira fundo. E 220 milhões de brasileiros se tornam especialistas em Psicologia, Biomecânica, Física, Filosofia e Engenharia de Materiais, todos cientes de como aquele pênalti deveria ter sido cobrado — especialmente após sua execução fracassada.

No mais recente episódio dessa saga, o Brasil enfrentou a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo e um pênalti perdido foi imediatamente adicionado à lista das cobranças que mudaram destinos. Essa coleção inclui momentos marcantes como os de Waldemar de Brito em 1934, Zico em 1986, Sócrates, Júlio César e Márcio Santos em 1994 — felizmente resgatados por Romário, Branco e Dunga — além dos erros de Willian e Hulk em 2014, e Rodrygo e Marquinhos em 2022. O curioso é que raramente se debate o verdadeiro protagonista dessa situação: os olhos.

Minha teoria — admito que é apenas uma hipótese — é bastante direta. A bola permanece imóvel. O goleiro, por sua vez, não está parado. Então por que muitos insistem em focar no único elemento da cena que já decidiu onde vai parar? O único com a capacidade de mudar de ideia ou enganar é o goleiro. Talvez a verdadeira batalha do pênalti não ocorra entre o pé do cobrador e a luva do goleiro; mas sim entre dois pares de olhos.

É evidente que profissionais especializados em treinamento esportivo falam sobre as diversas abordagens para cobrar um pênalti: alguns atletas optam por escolher um canto antes mesmo de correr; outros aguardam o movimento do goleiro para decidir seu alvo. Ambas as táticas podem ser eficazes quando bem executadas. Contudo, como mero espectador — essa figura tão tradicional no Brasil quanto o rádio portátil — mantenho uma suspeita: focar somente na bola é como realizar uma prova prestando atenção apenas na caneta. O problema nunca esteve na caneta; reside na pergunta feita. O goleiro representa essa pergunta; a bola é apenas a resposta.

Talvez seja por isso que grandes goleiros dedicam tanto tempo estudando os padrões dos cobradores. Eles não se concentram apenas no pé; observam o tronco, os ombros, a velocidade da corrida e até mesmo a posição da cabeça e dos olhos. Isso porque os olhos revelam intenções antes mesmo do corpo agir. E intenções são decisivas no futebol; elas valem campeonatos. Por esse motivo nunca compreendi aquela cena clássica em que o cobrador fixa seus olhos na bola durante toda a corrida. A bola permanece ali, pacientemente parada, enquanto o goleiro faz exatamente o que precisa: tenta convencer o atacante de sua presença em todos os cantos simultaneamente. É quase um truque mágico ou uma manobra política — enquanto a audiência é direcionada para onde devem olhar, o verdadeiro segredo se desenrola em outro lugar.

No fundo, talvez o pênalti represente uma metáfora perfeita para o Brasil. Passamos grande parte da vida focados no problema errado, discutindo os efeitos sem considerar as causas reais. Debatendo com a bola e esquecendo-se do goleiro. No futebol, isso pode custar uma Copa; na vida real costuma custar um país inteiro. Pode ser que eu esteja completamente enganado; talvez treinadores, psicólogos esportivos, fisiologistas e campeões do mundo leiam estas palavras e sorriam diante da ingenuidade deste cronista. Tudo bem! Porém deixo uma última indagação: se a bola nunca saiu do lugar… por que continuamos olhando para ela?

 

(*) Rollo atua como ator profissional e foi membro do Conselho Estadual de Política Cultural do RJ na área do Audiovisual. Atualmente participa do elenco da peça “O Bem Amado”, escrita por Dias Gomes e dirigida por Marcus Alvisi, ao lado de Diogo Vilela. Além disso, colabora com a produção do Espaço de Cinema Cavídeo, localizado em Vicente de Carvalho, Rio.