Na última terça-feira, dia 7, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) atualizou suas previsões para o ano de 2026, apresentando um cenário otimista que não se via há mais de dez anos. A nova expectativa é de que 3,01 milhões de veículos sejam vendidos no Brasil em 2026, representando um aumento de 12,1% em relação a 2025 e o melhor resultado desde 2014. Essa revisão é significativa mesmo dentro dos padrões do setor, visto que, em janeiro, a Anfavea previa um crescimento bem mais modesto de apenas 2,7%, quase cinco vezes inferior ao número atual.
Veículos leves impulsionam o crescimento; caminhões enfrentam dificuldades
O segmento responsável por essa recuperação é claramente o dos veículos leves — que inclui automóveis e comerciais leves — com uma previsão de crescimento de 13% para 2026. Em contrapartida, o mercado de veículos pesados, especialmente caminhões, apresenta uma perspectiva negativa, com uma retração projetada de 6% para o ano. Isso evidencia que o aquecimento econômico está beneficiando majoritariamente o consumo das famílias, ao invés do investimento produtivo das empresas, que geralmente se manifesta primeiramente na renovação das frotas de transporte.
A produção local também foi ajustada para cima, agora projetando um aumento de 5,8%, ao invés da expectativa anterior de alta de 3,7%. Com isso, espera-se que sejam fabricados cerca de 2,80 milhões de veículos no Brasil em 2026, alcançando o maior volume desde 2019. Os dados do primeiro semestre já confirmam essa tendência: entre janeiro e junho houve um crescimento na produção de 8,8% em comparação ao mesmo período do ano anterior e os emplacamentos aumentaram em 18,5% na mesma comparação temporal.
Move Brasil: impacto positivo e ausência da terceira fase
Uma parcela significativa desse desempenho pode ser creditada às duas fases do Move Brasil, um programa federal destinado ao financiamento que permite aos profissionais do transporte substituírem veículos antigos por novos modelos mais eficientes. Contudo, Igor Calvet, presidente da Anfavea, deixou claro que não há expectativas para a criação de uma terceira fase do programa. Segundo ele, fontes governamentais já indicaram que não existem condições fiscais ou políticas favoráveis para um “Move 3”, principalmente em um ano eleitoral.
Cenário positivo com desafios no comércio exterior
No entanto, nem tudo é positivo nesse quadro; a situação revela um aspecto preocupante para a indústria nacional. Calvet reconheceu que parte do crescimento do mercado interno não está sendo acompanhada pela produção nacional. Na verdade, as importações têm avançado significativamente — algo atribuído às taxas reduzidas em comparação à média global e à isenção do Imposto de Importação para veículos eletrificados montados sob o regime SKD (semidesmontados).
Os números refletem essa realidade na balança comercial: entre janeiro e junho deste ano foram importados 280,6 mil veículos enquanto as exportações totalizaram apenas 216,6 mil unidades no mesmo período — resultando em um déficit aproximado de 63 mil veículos e levando o setor automotivo brasileiro a níveis históricos de dependência externa. Aproximadamente metade dos veículos importados neste semestre vieram da China; além disso, as vendas de carros chineses no Brasil dobraram em um ano — saltando de cerca de 70 mil para 140 mil unidades — impulsionadas principalmente pelo crescente mercado de elétricos com uma alta superior a 70% nas importações acumuladas até agora.
Exportações continuam estagnadas
No cenário internacional, as previsões são ainda mais pessimistas do que anteriormente imaginado: a Anfavea agora projeta uma queda nas exportações da ordem de 12,8% para o ano de 2026 — uma alteração drástica quando comparada à expectativa inicial que previa crescimento de apenas 1,5%. Essa desaceleração é atribuída à diminuição da demanda proveniente da Argentina — tradicional destino dos veículos brasileiros — além da intensificação da concorrência por parte dos carros fabricados na China e México nos mercados externos.
Um momento positivo com nuances preocupantes
No geral, os dados sugerem um momento realmente favorável para o consumo interno e a geração de empregos na cadeia produtiva automotiva — algo que tem sido destacado pelo governo Lula como sinal do aquecimento econômico no Brasil. Entretanto, os números apresentados pela Anfavea revelam uma tensão estrutural: embora o mercado brasileiro esteja adquirindo volumes recordes atualmente, uma parcela crescente dessa demanda está sendo suprida por fábricas estrangeiras — notadamente chinesas — enquanto a produção interna cresce em ritmo mais lento do que as vendas e as exportações continuam sua trajetória negativa. Essa discrepância entre “vender mais” e “produzir mais” deverá ser central nas discussões sobre políticas industriais e tarifárias do setor automotivo nos próximos meses. Isso ocorre especialmente considerando a pressão adicional enfrentada pelo comércio exterior brasileiro devido às tarifas norte-americanas.
