Nesta quarta-feira (8), o Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou um aumento em sua previsão de crescimento para a economia do Brasil em 2026, passando de 1,9% para 2,4%. Essa atualização representa uma melhora de meio ponto percentual em comparação ao relatório anterior, que foi publicado em abril. O novo dado integra o relatório intitulado Perspectivas da Economia Mundial (World Economic Outlook), e surge em um momento em que o FMI também revisou para baixo suas expectativas para o crescimento global, agora estimado em 3%, frente aos 3,1% mencionados na última rodada de abril.
A trajetória das previsões do FMI
Este novo dado se torna mais significativo quando considerado junto às revisões anteriores realizadas pelo FMI sobre a economia brasileira ao longo deste ciclo. Em janeiro, a previsão foi reduzida para 1,6%, com a justificativa relacionada à política monetária restritiva implementada pelo Banco Central visando conter a inflação — atualmente, a taxa Selic está fixada em 15% ao ano, alcançando os maiores níveis dos últimos vinte anos. Já em abril, no contexto da escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, o FMI ajustou sua projeção para cima, elevando-a para 1,9%, sob a análise de que o Brasil, sendo um exportador líquido de commodities energéticas, poderia se beneficiar do aumento nos preços do petróleo resultante da guerra, enquanto outras partes do mundo enfrentariam consequências adversas.
Com essa nova revisão para 2,4%, o Brasil se destaca novamente entre os poucos países que receberam ajustes positivos em um cenário global mais cauteloso — uma melhoria que foi antecipada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, durante um fórum econômico no BNDES na semana passada, antes mesmo da confirmação oficial por parte do Fundo.
As razões por trás da cautela global
A postura mais reservada do FMI quanto à economia mundial é reflexo direto dos impactos da guerra entre Estados Unidos e Irã nos preços da energia e na confiança dos mercados. O Fundo observa que as tensões geopolíticas continuam a influenciar as decisões de investimento e a aumentar a volatilidade nos mercados internacionais — vale ressaltar que o relatório foi finalizado antes de uma nova declaração de Donald Trump sobre um possível rompimento do cessar-fogo com o Irã, situação que pode trazer ainda mais incertezas nos próximos meses. Na prática, o principal fator que impulsiona a melhora nas previsões brasileiras é uma vulnerabilidade externa: quanto mais os conflitos pressionam os preços do petróleo, maior é a tendência do Brasil colher efeitos colaterais positivos como produtor e exportador dessa commodity — uma espécie de “sorte” dependente da continuidade de crises geopolíticas em outras regiões.
O lado oculto dos números
É importante considerar também outro aspecto que não está presente no comunicado oficial: segundo relatórios recentes do próprio FMI, há uma tendência crescente na dívida bruta brasileira, projetada para subir de 87,3% do PIB em 2024 para 91,4% neste ano. Esse indicador continua sendo monitorado por investidores e agências de classificação de risco e deverá influenciar as discussões sobre a sustentabilidade fiscal do país nos próximos anos, independentemente das flutuações pontuais no PIB.
Adicionalmente, vale destacar que mesmo com as melhorias nas projeções do FMI para o Brasil — embora reais — ainda deixam o país com um ritmo de crescimento inferior à média das economias emergentes. O Fundo estima um crescimento médio de 4,2% para as economias emergentes e em desenvolvimento este ano — quase o dobro da nova previsão brasileira — com destaque especial para a China, cuja expansão esperada gira em torno de 4,4%.
Uma boa notícia com cautela necessária
A elevação na projeção do FMI é definitivamente uma informação positiva para o governo Lula (PT), que já demonstrava otimismo quanto ao desempenho econômico previsto para 2026 — otimismo reforçado recentemente pela revisão ascendente nas vendas de veículos feita pela Anfavea. Contudo, as oscilações nas estimativas do Fundo ao longo deste ano — cortes em janeiro devido aos juros altos; aumentos em abril por conta da guerra; novo aumento agora — servem como um lembrete de que tais previsões são reflexos de um cenário volátil e propensas a mudanças conforme evoluírem os conflitos no Oriente Médio e as condições internas relacionadas ao crédito e à fiscalidade brasileira. Considerar os números divulgados hoje como uma conclusão definitiva sobre a saúde econômica do Brasil seria desconsiderar exatamente os padrões observados nos últimos relatórios emitidos pelo próprio FMI.
