Crescimento da Renda dos Mais Ricos Atinge Quase Três Vezes o dos Menos Favorecidos, Aponta PNAD Contínua

Os últimos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), publicados pelo IBGE, indicam uma nova elevação na renda média da população brasileira. Esse crescimento está relacionado à recuperação do emprego, ao aumento real do salário mínimo e à reinstituição de políticas sociais a partir de 2023, conforme analisado pela Carta Capital.

Entretanto, os números revelam que a desigualdade de renda continua sendo uma característica marcante da estrutura econômica do Brasil. Os dados mostram que a renda média dos 40% mais pobres cresceu apenas um pouco mais de 3%, enquanto os 10% mais ricos tiveram um aumento de aproximadamente 8,7%, quase três vezes mais rápido.

Com base nas informações consolidadas da PNAD, os 10% mais abastados ganham em média quase 14 vezes o que os 40% menos favorecidos recebem. Especialistas alertam que esse fenômeno está profundamente enraizado no sistema tributário do país, que impõe uma carga maior sobre salários e consumo, ao mesmo tempo em que favorece lucros, dividendos e bens patrimoniais.

Uma análise técnica do economista Sérgio Gobetti, utilizando microdados da Receita Federal, revela que a progressividade do Imposto de Renda desaparece nos níveis mais altos da distribuição. Contribuintes com rendimentos anuais de R$ 449 mil enfrentam uma alíquota efetiva de 14%, enquanto aqueles com rendimentos superiores a R$ 26 milhões pagam apenas 12,9%.

Um estudo elaborado em parceria entre a Receita Federal e o EU Tax Observatory corroborou essa observação. Os milionários em dólar no Brasil, com rendimentos anuais acima de R$ 5,5 milhões, arcam com uma alíquota efetiva total em torno de 20,6%. Por outro lado, o trabalhador formal médio enfrenta uma carga tributária estimada em 42,5%, evidenciando a menor contribuição proporcional dos muito ricos para o financiamento das atividades estatais.

A grande parte da população depende exclusivamente de salários que são diretamente tributados e usados para cobrir despesas básicas sujeitas a impostos indiretos. Em contrapartida, os indivíduos mais ricos obtêm uma fração considerável de sua renda através de lucros e dividendos provenientes de aplicações financeiras, frequentemente usufruindo de isenções fiscais e alíquotas mais baixas.

Essa realidade explica por que as desigualdades continuam mesmo diante do crescimento econômico e da recuperação do mercado laboral. Além disso, a distribuição da renda também é afetada por disparidades ligadas à raça e ao gênero, com as faixas salariais mais baixas sendo predominantemente ocupadas por trabalhadores negros e mulheres.

A reforma tributária sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva introduziu novos mecanismos para taxar altas rendas. Os efeitos dessa mudança começarão a ser sentidos no exercício fiscal de 2026, com declarações referentes ao ano-calendário de 2025.

No contexto atual, cresce a mobilização em torno da campanha nacional “Taxar os Super-ricos: justiça tributária começa no topo”, promovida por um conjunto de 79 organizações da sociedade civil. Esta iniciativa une movimentos populares, centrais sindicais e diversas entidades atuantes em quinze estados brasileiros.


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