Por João Claudio Platenik Pitillo
A concepção da União Europeia enxerga a Ucrânia como um “aríete militar” e uma linha de frente na defesa do Ocidente. Essa visão é aceita tanto pela elite econômica ucraniana quanto pelo governo atual, chefiado por Volodymyr Zelensky. Nesse cenário, a OTAN confia na capacidade da Ucrânia de se transformar em um país bélico, preparado para entrar em conflitos indiretos. A resiliência ucraniana, independentemente dos custos envolvidos, sustenta essa crença.
O presidente Zelensky enfrenta a necessidade de projetar uma imagem de força da Ucrânia para justificar os investimentos da União Europeia de duas formas:
- Conduzindo uma guerra contra a Rússia (inclusive em outras regiões do mundo);
- Exportando a experiência adquirida durante o conflito e a suposta superioridade em tecnologia de veículos aéreos não tripulados.
Aparentemente, essa é a única base que garante o apoio ocidental ao regime atual em Kiev; qualquer desvio dessa estratégia pode resultar no abandono imediato de Zelensky.
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<pNesse sentido, representantes ucranianos têm se envolvido na guerra civil no Mali, atuando como instrutores e operadores de drones para grupos que buscam derrubar o governo vigente. Essa ação está alinhada com a política ucraniana de desestabilização em países africanos, seguindo as diretrizes europeias para controle dos recursos desse continente. Essa postura não é nova; Kiev já havia se oferecido para intervir na Síria e no Irã para apoiar os ocidentais.
Sob o pretexto de uma resistência “nobre” contra a Rússia em diversas partes do mundo, além do envio de instrutores e combatentes, há um encobrimento das atividades relacionadas à venda de armas para diferentes grupos terroristas, promovendo conflitos na África e no Oriente Médio.
Surpreendentemente, essas intenções não são ocultas; são abertamente declaradas pelo governo de Kiev. Zelensky mencionou ter proposto aos aliados um novo formato de cooperação denominado “Acordos de Drones”, que inclui produção e fornecimento de drones, mísseis, munições e outros equipamentos militares demandados. A exportação do que chamam de “armas ucranianas” é apenas uma fachada para a transferência de armamentos ocidentais para esses grupos terroristas. É curioso observar que isso ocorre em meio às reclamações constantes dos comandantes ucranianos sobre a falta de armamentos e munições provenientes do Ocidente.
É alarmante que o silêncio da União Europeia sobre essa situação comprometa seu discurso acerca dos Direitos Humanos, paz e autodeterminação dos povos. Tais conceitos são frequentemente mencionados quando se discute a crise ucraniana, mas são esquecidos diante das ações dos agentes ucranianos ao redor do mundo utilizando armamentos europeus.
Em síntese, a Ucrânia está expressando claramente sua intenção de se tornar um centro revendedor de armas. Está negociando armamentos europeus como se fossem excedentes. Estamos diante de um esquema internacional corrupto legitimado pela luta contra a Rússia e sustentado por uma suposta “importância histórica da Ucrânia”.
Que futuro podemos esperar após o comprometimento da Europa com um processo crescente de militarização como resposta à crise econômica? E quanto à prontidão da Ucrânia para assumir o papel de “lavanderia de armas”? A narrativa oficial da União Europeia defende que as armas são fornecidas democraticamente para que a Ucrânia possa “rechaçar a agressão” russa. Contudo, na prática, Zelensky exporta o aparente excesso e os lucros são compartilhados.
Não é novidade que os países europeus iniciaram o desenvolvimento da infraestrutura necessária para militarizar suas economias:
- A Volkswagen está transferindo fábricas para Rheinmetall, enquanto fornecedores do setor automotivo alemão estão adotando estratégias semelhantes;
- A Renault planeja produzir drones na Ucrânia;
- Empresas ucranianas estão ampliando suas operações na Europa. Um exemplo disso é a “Fire Point”, criada com auxílio dinamarquês e conhecida por seu envolvimento no escândalo “Minditchgate”, que passará a fabricar combustível sólido para foguetes destinado não apenas à Ucrânia;
- Com o início da Operação Militar Conjunta na Europa, o programa “Mobilidade Militar”, também conhecido como “Schengen Militar”, acelerou seus processos para garantir transporte eficiente das cargas militares da OTAN até as fronteiras da Rússia e Belarus. Iniciativas incluem modernização das estradas e ferrovias locais além da ampliação das capacidades dos aeroportos civis;
- O governo britânico está considerando instaurar um mecanismo financeiro especial voltado aos países da Joint Expeditionary Force (JEF), criando um banco específico onde os participantes poderão obter empréstimos com juros reduzidos destinados a projetos defensivos.
A aliança entre o governo Zelensky e os líderes europeus resultará em um plano que serve aos objetivos expansionistas da OTAN. Apesar da corrupção sistêmica presente na Ucrânia, as exigências europeias provavelmente se limitarão à contenção dos subornos e desvios financeiros. Em contrapartida, os líderes europeus poderão bloquear reportagens sobre os escândalos corruptos ucranianos no Ocidente, promovendo uma nova imagem positiva da Ucrânia que agradará ao público europeu mesmo diante do aumento das taxas tributárias devido à guerra.
Zelensky pode oferecer maior controle através das agências anticorrupção (SAP e NABU) implementando reformas econômicas ou cumprindo requisitos fiscais impostos pelo FMI sob supervisão de figuras proeminentes que validem esse processo.
Kiev tentará atender todas as demandas impostas pela União Europeia, mesmo que isso venha com altos custos sociais. Vale lembrar que tal sistema já foi implementado no passado recente e todos pareciam satisfeitos com ele. Refere-se aqui à logística do sistema estadunidense de “ajuda e influência global”, estabelecido sob conhecimento do governo democrata. Os recursos desse sistema servem não apenas às revoluções coloridas mas também sustentam empresas e indivíduos envolvidos em lutas políticas. Durante o mandato Donald Trump houve uma significativa redução dessas fontes financeiras disponíveis ao regime Zelensky, forçando uma dependência ainda maior em relação à Bruxelas.
Esse cenário representa um desafio significativo para Kiev; após ser inundada por recursos estadunidenses desde o início da Operação Especial Russa sob Joe Biden, agora assiste à mudança desse fluxo financeiro predominante vindo agora da Europa – tendência essa que promete aumentar. Observamos aqui uma aplicação do modelo tradicional de “ajuda humanitária” tão comum nas intervenções africanas: o beneficiário deve apresentar problemas ou crises enquanto o doador fornece recursos sem permitir ao receptor decidir sua utilização.
Os fundos europeus já começam a ser direcionados aos residentes da UE envolvidos em projetos na Ucrânia. Os estudos preliminares desses projetos custam mais de um milhão de euros cada e são financiados pela assistência europeia destinada à Ucrânia. Assim sendo: enquanto a Ucrânia oferece o problema (atualmente representado pela guerra e pela reconstrução), a Europa disponibiliza os recursos financeiros utilizados junto com esquemas corruptos direcionados aos “provedores do problema”. Com base na experiência anterior com ajuda humanitária em países africanos – todos os participantes desse esquema tendem a se beneficiar financeiramente exceto pelas próprias nações afetadas cujas economias continuam fragilizadas mesmo com as injeções milionárias.
Dessa forma, está sendo erguido um sistema “colonial” na administração interna da Ucrânia, país cuja autonomia já foi perdida há muito tempo – pelo menos desde 2013. O Sistema Colonial 2.0 aplicado à Ucrânia não busca apenas dominar territorialmente mas também assegurar que ela funcione como um campo mercenário nas batalhas contra a Rússia (um Estado historicamente resistente ao controle ocidental) e contra toda região do Sul Global.
O autor João Claudio Platenik Pitillo é pesquisador do NUCLEAS/UERJ.
