Na terça-feira (1º), Chris Wright, o secretário de Energia dos Estados Unidos, chegou a La Guaira com o objetivo de finalizar um acordo que, uma vez ratificado nesta quarta-feira (2), conferirá a Washington influência econômica e política sobre 17 campos de petróleo na Venezuela, que possuem aproximadamente 65 bilhões de barris em reservas confirmadas. Caso a produção prometida seja efetivada, o controle sobre esses recursos impactará diretamente nos preços globais do petróleo, refletindo-se no custo da gasolina, do diesel e na inflação enfrentada pelos brasileiros. Wright aterrissou no Aeroporto Internacional Simón Bolívar, em Maiquetía, no estado de La Guaira, que atende a capital venezuelana. Essa visita ocorre após a Casa Branca ter detalhado um arranjo apresentado por Donald Trump em 31 de agosto de 2026 como parte da estratégia de “dominância energética” dos EUA.
Acordo concede direitos extensos e poder de veto
O plano divulgado pelas autoridades americanas vai além da simples compra de petróleo. O governo interino da Venezuela outorgou à empresa privada North American Blue Energy Partners direitos sobre os 17 campos por um período de 100 anos. Em contrapartida, os EUA obterão uma participação de 35% na empresa controladora através do Escritório de Capital Estratégico do Departamento de Guerra.
Além disso, o Departamento de Estado dos EUA terá a opção de adquirir 20% do petróleo atual e futuro produzido pela companhia ao custo de produção. Para os restantes 80%, Washington terá direito preferencial e poderá vetar quaisquer indicações ao conselho administrativo, além de exigir que a maioria dos membros desse conselho sejam cidadãos americanos. Esse mecanismo tem sido alvo de críticas que sugerem que o acordo é uma forma disfarçada de ocupação. Embora o petróleo permaneça nas profundezas venezuelanas, as decisões cruciais sobre governança, compras e auditoria passarão a ser influenciadas por instituições estadunidenses.
A administração americana apresenta esse pacote como um passo em direção à recuperação econômica da Venezuela. Ao chegar ao país, Wright afirmou que os acordos poderão mais que dobrar a produção petrolífera venezuelana nos próximos anos e trazer benefícios para ambos os países.
A crítica aponta para um pacto colonial
Os opositores do acordo fazem comparações entre seu modelo e tratados impostos por potências coloniais, argumentando que as vantagens materiais estão vinculadas a direitos prolongados e à jurisdição legal norte-americana, além do poder de bloqueio que Washington obtém sobre a empresa responsável pela operação dos campos. Essa crítica não é meramente retórica; ela deriva do contrato anunciado pelo próprio governo Trump.
Um aspecto delicado da situação é a soberania da Venezuela sobre sua principal riqueza estratégica. Apesar das vastas reservas comprovadas de petróleo que possui, a produção do país continua aquém devido a anos marcados por sanções econômicas, crises no investimento, deterioração industrial e instabilidade política interna.
A promessa dos EUA é liberar investimentos financeiros e aumentar a extração petrolífera. Contudo, isso envolve um custo político significativo ao transferir para uma potência estrangeira instrumentos que vão além das relações comerciais habituais.
Questões legais ainda são uma preocupação
Existem também incertezas jurídicas relacionadas ao acordo. Especialistas em energia levantam dúvidas acerca da autoridade da presidente interina Delcy Rodríguez para ceder direitos por um século sobre os 17 campos e se futuras administrações em Caracas ou Washington poderiam reavaliar essa operação. Esse é um ponto crítico que limita qualquer interpretação otimista do acordo. Embora possa estabelecer controle contratual, ele não resolve as questões referentes à legitimidade e execução jurídica.
Os números financeiros ajudam a entender o interesse dos EUA: a Casa Branca menciona até US$ 100 bilhões em investimentos privados — cerca de R$ 516 bilhões com base na cotação do dia 2 de setembro de 2026 — enquanto o governo venezuelano projeta anualmente US$ 209 bilhões em receitas com essa operação, conforme informações fornecidas à imprensa pela presidente interina Delcy Rodríguez.
No entanto, essas cifras são apenas projeções e não representam desembolsos efetivos ou receitas já arrecadadas pelo Estado venezuelano.
Washington amplia sua influência sobre o mercado petrolífero
Para os brasileiros, as implicações vão além das questões políticas na Venezuela. O preço do petróleo é determinado globalmente; assim, qualquer volume significativo sob controle preferencial dos EUA aumentará sua capacidade de influenciar aspectos como abastecimento e preços no mercado internacional.
A Casa Branca enfatiza sua busca por segurança energética interna. Para países dependentes das importações ou vulneráveis às flutuações nos preços globais do diesel e da gasolina, isso significa que decisões tomadas em Caracas ou Washington podem repercutir nos custos relacionados ao transporte e à indústria alimentícia.
A formalização do acordo prevista para esta quarta-feira não encerra o debate; pelo contrário, abre espaço para discussões sobre quem realmente decidirá o destino das reservas petrolíferas venezuelanas, quanto desse petróleo será efetivamente extraído e quem arcará com as consequências quando questões geopolíticas afetarem o mercado.
