O governo norte-americano custeará os gastos de viagem, hospedagem, alimentação e transporte de um procurador da República do Brasil, que irá atuar como representante oficial do Ministério Público Federal (MPF) em um workshop chamado “Combate ao Irã e seus Representantes nas Américas”. O evento ocorrerá nos dias 16 e 17 de setembro em Assunção, Paraguai.
A informação é confirmada pela Portaria PGR/MPF nº 559, datada de 25 de agosto e assinada pelo vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateaubriand Pereira Diniz Filho. A publicação foi feita no Diário Oficial da União em 31 de agosto. O documento deixa claro que “os custos com passagens aéreas, traslados internos, hospedagem e alimentação serão assumidos pelo Governo dos Estados Unidos”, conforme o primeiro parágrafo do artigo 1º. O MPF será responsável apenas por uma meia-diária internacional. O procurador designado para a missão é Lucas de Morais Gualtieri, que atua em Minas Gerais.
Os documentos oficiais estão acessíveis para download. É possível clicar aqui para obter a página correspondente do Diário Oficial da União com a portaria. Para acessar as duas páginas da versão publicada no sistema interno do MPF, clique aqui e aqui.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) não é uma entidade privada; trata-se de uma instituição estatal brasileira cujo líder, Paulo Gonet, foi nomeado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e aprovado pelo Senado. Quando um procurador viaja “na qualidade de representante do Ministério Público Federal”, conforme mencionado na portaria, é o Estado brasileiro que se faz presente nas discussões. Neste caso específico, as discussões são promovidas e financiadas por Washington com foco no combate a um país com o qual o Brasil mantém relações diplomáticas plenas, comércio bilateral e parcerias políticas dentro dos BRICS—do qual o Irã é membro desde 2024.
Uma guerra ilegal
A partir do dia 28 de fevereiro, uma guerra foi declarada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã. O conflito teve início com bombardeios que resultaram na morte do líder supremo Ali Khamenei durante negociações sobre o programa nuclear iraniano. O grupo Human Rights Activists in Iran reporta que mais de 3.600 pessoas perderam a vida devido aos ataques, incluindo mais de 1.700 civis. Não houve autorização prévia do Conselho de Segurança da ONU para tais ações militares. Uma trégua negociada em abril desmoronou em julho quando Donald Trump anunciou que o memorando de entendimento com Teerã havia terminado, referindo-se aos iranianos como “pessoas más e doentes”.
O governo brasileiro manifestou sua condenação aos ataques realizados pelos EUA e Israel contra o Irã. Importante ressaltar que o Brasil não está em conflito com o Irã nem o MPF está envolvido em qualquer tipo de hostilidade contra esse país. Não existe nenhuma norma ou autorização legal que permita a um órgão estatal brasileiro participar, sob a tutela de uma das partes envolvidas no conflito, em um evento cujo título classifica outro Estado soberano como inimigo a ser combatido. A Constituição brasileira reserva ao presidente da República—com aprovação do Congresso—o poder para declarar guerras ou estabelecer relações pacíficas; essa prerrogativa não pertence a nenhum procurador.
A nota da PGR
Em resposta a questionamentos da mídia, a PGR divulgou uma nota oficial na íntegra.
“O Procurador da República Lucas Gualtieri foi convidado para palestrar em um evento na região da Tríplice Fronteira sobre sua experiência na Operação Trapiche, já judicializada e atualmente em fase recursal nos tribunais superiores. Outras autoridades brasileiras do MP e polícias também foram convidadas, assim como procuradores de diversos países latino-americanos. A atividade abordará técnicas de cooperação internacional e combate ao financiamento do terrorismo no Brasil. É importante destacar que na cooperação internacional os membros do MPF atuam sempre respeitando rigorosamente a Constituição e as leis brasileiras.”
Uma nota que não resiste ao próprio documento
A resposta dada pela PGR é considerada irônica por muitos críticos. A PGR tenta caracterizar a viagem como parte de um esforço contra o terrorismo; no entanto, o evento tem um título explícito: “Combate ao Irã”. Essa designação está claramente mencionada na portaria emitida pela própria PGR. O Irã não é uma entidade terrorista; é um Estado soberano reconhecido pela ONU e membro pleno dos BRICS junto ao Brasil, possuindo uma embaixada em Brasília e vice-versa em Teerã. Um evento dedicado à discussão sobre combater uma nação configura-se como um ato bélico; além disso, a expressão “terrorismo” não figura em nenhum trecho do documento oficial.
A nota também omite informações cruciais sobre quem financia esse evento. A PGR menciona um “evento organizado na região da Tríplice Fronteira” sem esclarecer quem está por trás dessa organização e ignora totalmente que a própria portaria destaca claramente que os custos são cobertos pelo governo dos Estados Unidos. Não se trata de uma instituição acadêmica ou organização internacional; é o governo Trump—uma das partes beligerantes—financiando a participação de um representante estatal brasileiro em um evento direcionado contra o país alvo dos bombardeios.
Caso o tema fosse realmente o terrorismo, surgiriam questionamentos sobre qual lado estaria sendo defendido nesse discurso. Os responsáveis pelos bombardeios massivos que resultaram na morte de mais de 1.700 civis e assassinaram lideranças iranianas durante negociações diplomáticas foram os Estados Unidos e Israel—ações essas condenadas pelo Brasil. O Irã não atacou ou ameaçou o Brasil nem possui qualquer disputa com ele; portanto, a escolha das palavras pela PGR ao mencionar “terrorismo” pareceu mais uma tentativa disfarçada de desviar atenção do conteúdo explícito contido na portaria.
Outro ponto relevante diz respeito à localização geográfica mencionada: enquanto a portaria cita Assunção como sede do evento, a nota se refere à Tríplice Fronteira—que está situada a mais de 300 quilômetros dali. Além disso, uma pesquisa realizada pelo Metrópoles não encontrou registros públicos sobre esse workshop: não há organizadores identificados, programação divulgada ou local confirmado para sua realização. O Departamento de Estado americano foi consultado acerca dessa questão mas ainda não respondeu às indagações feitas.
Quem é o procurador
Lucas Gualtieri ingressou no MPF em 2013 e coordenou entre 2020 e 2024 o primeiro Gaeco federal em Minas Gerais. Ele ganhou notoriedade nacional devido à Operação Trapiche—deflagrada em novembro de 2023—que segundo fontes da imprensa contou com apoio do Mossad (serviço secreto israelense) para investigar alegações sobre recrutamento de brasileiros pelo Hezbollah. A operação resultou na prisão pública de dois nacionais; entretanto, após um mês a Polícia Federal pediu sua liberação alegando que eles não representavam risco à sociedade—a Justiça Federal acatou esse pedido posteriormente e os liberou enquanto o caso continua tramitando nos tribunais superiores.
Desde então, Gualtieri se tornou frequente nas discussões internacionais relacionadas ao contraterrorismo. Em dezembro de 2025 participou de dois workshops realizados em Buenos Aires financiados pelo International Institute for Justice and the Rule of Law; já em 2026 ele lecionou em Assunção e esteve presente na sede da Interpol em Lyon para treinar um grupo EUA-Europol focado no combate ao Hezbollah. Atualmente ele cursa mestrado em Relações Internacionais com foco no contraterrorismo—a reportagem aponta que nenhuma dessas missões anteriores foi custeada diretamente por governos estrangeiros; assim sendo esta viagem programada para setembro será sua estreia nesse aspecto.
Esse padrão tem se tornado comum: procuradores brasileiros envolvidos nas agendas de segurança estabelecidas por Washington e Tel Aviv frequentemente acabam importando os inimigos dessas potências para suas operações internas no Brasil—como evidenciado pela Lava Jato onde seus participantes mantiveram contatos diretos com autoridades americanas sem seguir os canais oficiais estabelecidos previamente para cooperação internacional resultando numa significativa erosão da soberania econômica brasileira nos últimos anos.
Paraguai, a porta de entrada
A escolha por Assunção não foi aleatória; recentemente em março,o Congresso paraguaio deu seu aval à sanção presidencial sob Santiago Peña referente ao acordo SOFA (Estatuto das Forças) com os Estados Unidos permitindo assim a presença militar americana armada dentro do território paraguaio sem sujeição às leis locais ou limitações impostas por elas quanto aos seus agentes civis vinculados ao Pentágono ou contratados americanos.Além disso,o governo paraguaio nega veementemente qualquer possibilidade desse acordo criar bases militares permanentes mas analistas criticam afirmando exatamente ser essa abertura propensa.A preocupação também chegou até Lula quando ele tomou conhecimento deste movimento visto como ameaça às fronteiras brasileiras sem aviso prévio.Por sinal,a aprovação ocorreu logo após Peña comparecer à cúpula Escudo das Américas organizada sob liderança Trump visando formar coalizão anticartéis pelo continente.
E nesse cenário complexo onde Assunção se transforma numa plataforma estratégica americana voltada para ações no Cone Sul,surge agora este procurador brasileiro discutindo temas relacionados ao combate contra um parceiro diplomático nacional cuja passagem está sendo custeada por Washington.Ainda nesse contexto vale lembrar que recentemente,o Itamaraty fez alertas ao Congresso sobre possíveis classificações futuras dos EUA considerando Comando Vermelho/PCC organizações terroristas estrangeiras podendo abrir precedentes jurídicos permitindo intervenções militares americanas dentro do território nacional.Assim,a lógica apresentada neste workshop argumentando sobre combater “o Irã e seus representantes nas Américas” pode eventualmente ser utilizada futuramente visando também “facções brasileiras” levando assim situações similares entre ambos lados envolvidos nessa dinâmica geopolítica atual.
Cabe agora decidir ao procurador-geral Paulo Gonet se realmente representa os interesses estatais brasileiros ou se submete suas atuações à política externa imposta pelos Estados Unidos sob Donald Trump.Por fim até este momento final desta matéria,pode-se afirmar categoricamente que nenhuma manifestação formal ocorreu partindo dele até agora.
