Após mais de 2 anos e meio de conflitos, polêmicas e pressão política, o primeiro-ministro israelense se prepara para mais um referendo sobre seu governo — com novas circunstâncias
Nos últimos dois anos, especialistas em política têm dito repetidamente que a administração de Benjamin Netanyahu estaria à beira do colapso. Alguns desejavam essa queda explicitamente, enquanto outros apenas calculavam as probabilidades e chegavam à mesma conclusão. Entretanto, a coalizão se manteve firme — até agora.
Curiosamente, foram os próprios aliados ultraortodoxos do premier que aceleraram seu fim. Dois partidos religiosos da coalizão decidiram romper com Netanyahu ao não conseguirem aprovar uma lei que isentasse estudantes de seminários religiosos do serviço militar obrigatório. O premier tentou viabilizar a proposta, mas a maioria dos parlamentares não apoiou uma medida tão rejeitada pela população. Esse impasse foi o gatilho para a dissolução do governo.
A Knesset, parlamento de Israel, está agendada para votar no dia 20 de maio sua própria dissolução. Caso isso se concretize, o país entrará em período eleitoral, com as eleições previstas para setembro ou outubro. Embora Netanyahu possa tentar adiar esse desfecho, suas opções são limitadas. O mandato atual da Knesset termina em outubro, e as eleições devem ocorrer até o dia 27 desse mês.
A controvérsia sobre a isenção militar dos ultraortodoxos não é uma novidade. No entanto, ela ganhou novo destaque e promete ser um tema central nas próximas campanhas eleitorais. Muitos cidadãos israelenses veem na submissão do governo às demandas religiosas uma transferência injusta de encargos para a sociedade civil — um ressentimento que eles carregam há anos.
A lembrança do massacre de 7 de outubro
Qualquer análise das futuras eleições em Israel está inevitavelmente ligada ao massacre ocorrido em 7 de outubro de 2023. Nesse dia, militantes do Hamas invadiram o sul do país vindos da Faixa de Gaza, resultando na morte de cerca de 1.200 pessoas e no sequestro de mais de 250 indivíduos. Este foi o ataque mais devastador contra judeus desde o Holocausto.
A falha catastrófica das agências de inteligência e das forças armadas israelenses em antecipar esse ataque deixou uma marca profunda na sociedade. Inicialmente, muitos acreditavam que a coalizão liderada por Netanyahu não resistiria ao impacto desse evento trágico. No entanto, isso não ocorreu. O premier conseguiu redirecionar as críticas para os militares e os serviços secretos, prometendo uma “vitória total” nas batalhas futuras. Com essa estratégia retórica, ele conseguiu manter sua coalizão coesa e atrair novos aliados enquanto Israel se preparava para o conflito.
No entanto, hoje a promessa de vitória total parece cada vez mais vazia. Israel controla apenas destroços em pouco mais da metade da Faixa de Gaza, enquanto o Hamas ainda domina o restante do território. No Líbano, apesar das perdas significativas enfrentadas pelo Hezbollah devido aos ataques aéreos israelenses, seus combatentes continuam engajados em confrontos diretos com as tropas israelenses. No Irã, ataques israelenses realizados em colaboração com os Estados Unidos debilitam o regime local sem derrubá-lo completamente. “Uma mudança ainda é possível”, reconhece um analista especializado no Irã. “Mas é improvável que ocorra antes das eleições.”
Netanyahu aguarda um possível retorno da pressão militar dos Estados Unidos sobre Teerã sob liderança de Donald Trump; no entanto, poucos na inteligência israelense acreditam que haverá um colapso iminente do regime iraniano.
Naftali Bennett, ex-primeiro-ministro e atual líder de uma lista partidária composta por candidatos de direita e centro, já anunciou que convocará imediatamente uma comissão para investigar as falhas que permitiram o ataque em outubro caso chegue ao poder. Esse gesto é tanto simbólico quanto politicamente calculado; ele toca numa ferida que Netanyahu prefere manter escondida.
Entretanto, as eleições que se aproximam provavelmente não irão abordar apenas questões ligadas aos conflitos militares. A maioria dos israelenses ainda acredita que as operações realizadas em Gaza, Líbano e contra o Irã foram respostas necessárias a ameaças reais. Com mais de 70 mil mortes registradas em Gaza — a maior parte civis — e a população local à beira da fome, o apoio às ações militares continua forte internamente.
“É provável que nossa derrota eleitoral aconteça porque as guerras prolongaram-se sem resultados decisivos”, admite um membro do Likud, partido liderado por Netanyahu. Essa confissão é reveladora — e incomum.
Para os opositores políticos, porém, os desafios vão além das frentes militares. Antes do ataque de 7 de outubro, a coalizão governista tentava implementar reformas judiciais profundas que comprometeriam a independência do Supremo Tribunal israelense. Centenas de milhares foram às ruas protestar contra o que consideravam uma ameaça às bases democráticas do estado; esse movimento ainda persiste — embora tenha recuado durante os conflitos armados.
Além disso, críticos apontam para os generosos repasses financeiros feitos às comunidades ultraortodoxas, que frequentemente não cumprem serviço militar e têm participação econômica limitada na sociedade. Para muitos cidadãos israelenses essa situação é insustentável tanto moral quanto financeiramente.
No âmbito macroeconômico, Israel apresenta um desempenho surpreendente: o setor tecnológico permanece vigoroso — especialmente nas áreas de defesa e cibersegurança; tanto a bolsa quanto o shekel mantêm-se estáveis; e a taxa de desemprego continua baixa — parcialmente devido ao fato de muitos jovens estarem servindo nas Forças Armadas e fora do mercado laboral convencional. As exportações de gás natural dos campos offshore no Mediterrâneo também ajudam a equilibrar as contas externas.
No entanto, preocupações fiscais estão crescendo: os gastos governamentais aumentaram impulsionados pela guerra e pelas transferências sociais voltadas às comunidades ultraortodoxas; muitos economistas alertam sobre a sustentabilidade dessa tendência no longo prazo.
Um sinal demográfico preocupante também começa a emergir: em 2024 cerca de 83 mil israelenses emigraram — estabelecendo um recorde histórico; outros 70 mil seguirão esse caminho em 2025 — especialistas interpretam esse fenômeno como uma possível fuga de cérebros onde profissionais qualificados buscam estabilidade fora do país.
A maioria das pesquisas realizadas nos últimos três anos indicam que os partidos atuais da coalizão não conseguem formar uma maioria parlamentar; isso porém não implica que a oposição esteja pronta para assumir o governo; pelo contrário: ela continua fragmentada sem liderança definida.
Bennett uniu forças com Yair Lapid (ex-premier centrista) tentando criar algo semelhante ao movimento dos partidos democráticos na Hungria contra Viktor Orbán; contudo essa comparação possui limites evidentes. Outros partidos opositores ainda não reconhecem Bennett como candidato natural à premiê; alguns grupos centristas ou direitistas rejeitam alianças com partidos árabe-israelenses diminuindo as chances formativas para um novo governo; essa fragmentação ajuda a explicar porque o Likud ainda aparece como o maior partido nas sondagens atuais.
Netanyahu acumula recorde como primeiro-ministro
Ao atingir 76 anos idade, Netanyahu se torna o primeiro-ministro com maior tempo acumulado no cargo na história israelense; além das pressões políticas enfrentadas ele lida com problemas cardíacos e recupera-se após tratamento contra câncer prostático; há quem especule se desta vez ele tomará finalmente a decisão pela aposentadoria.
A lógica sugere essa possibilidade: retirar-se agora evitaria uma derrota humilhante e abriria espaço para um acordo jurídico encerrando as acusações por suborno e fraude contra ele — acusações que ele nega veementemente.
No entanto seu histórico sugere outra direção: esta seria sua décima segunda eleição como líder do Likud; ao longo das quatro décadas atuando na política ele já surpreendeu analistas muitas vezes revertendo cenários considerados perdidos; assim sendo, mais uma batalha política parece ser irresistível para ele.
Diante disso tudo – mesmo com guerras sem vitórias claras à vista – num contexto democrático tenso e numa sociedade marcada por divisões internas profundas – existe o risco real da eleição israelense se transformar novamente num referendo pessoal sobre Benjamin Netanyahu ao invés da discussão sobre o futuro da nação.
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