BRICS e G7: Rivalidade de Poder em Foco Após Cúpula de Nova Délhi

Os BRICS evoluíram de um espaço voltado para economias em desenvolvimento para um grupo que desafia diretamente as normas políticas, financeiras e econômicas estabelecidas pelo G7. Essa análise é apresentada pelo especialista Pietro Lora Alarcón em um artigo divulgado na segunda-feira (28) no semanário colombiano Voz.

O autor examina a declaração final de princípios que foi aprovada durante a reunião do bloco nos dias 12 e 13 de setembro, realizada em Nova Délhi. O encontro contou com a participação dos cinco fundadores — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — além dos novos membros Egito, Etiópia, Indonésia, Irã e Emirados Árabes Unidos.

De solicitação por representação a um projeto de poder

O bloco teve sua origem na cúpula de Ecaterimburgo, na Rússia, em junho de 2009, com o intuito de desafiar o G7 e o G20, buscando uma maior influência das economias emergentes nas instituições financeiras globais. O G7 é composto por Estados Unidos, Alemanha, Canadá, Japão, França, Itália e Reino Unido, que historicamente têm exercido controle sobre tais instituições.

A comparação entre a declaração inicial e a recente de Nova Délhi evidencia diferenças significativas e uma abordagem mais proativa. O que antes era uma busca por voz nas instituições financeiras agora se transformou em uma competição pela governança política e econômica global, com um compromisso explícito em prol da paz, segurança e cooperação.

O que está em jogo nos três eixos

Os três eixos estabelecidos abrangem a governança política e de segurança, a esfera econômica e financeira, bem como a cooperação sociocultural entre as nações. No aspecto econômico, há uma disputa pela influência sobre as entidades que determinam o crédito internacional e o financiamento para o desenvolvimento.

A ênfase na paz, segurança e colaboração entre os Estados adquire relevância em tempos marcados por conflitos e sanções. O escopo declarado vai além das esferas governamentais e inclui lutas populares contra o imperialismo e o neofascismo.

As consequências práticas dessa nova abordagem afetam diretamente questões relacionadas ao crédito, energia e desenvolvimento — áreas nas quais as regras globais regulam o que cada país pode financiar ou construir.

Cúpula sob pressão

Segundo Alarcón, o Irã fez sua estreia como membro pleno sob condições adversas devido à agressão militar dos Estados Unidos, respondendo com resistência político-militar. Além disso, ele menciona que o Brasil se encontra em meio a um processo eleitoral tumultuado sob influência do presidente americano Donald Trump.

No mesmo período, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) intensifica seu apoio militar à Ucrânia. A iminente viagem de Xi Jinping aos Estados Unidos contribui para um clima tenso que envolve os trabalhos da cúpula.

Ciclos intensos de reuniões preparatórias reuniram representantes de países parceiros como Vietnã, Nigéria, Uganda, Bielorrússia e Cuba. Isso ampliou a base política da cúpula para além do grupo formal de dez membros.

A China à frente do teste

A presidência do bloco passa para a China com a missão de liderar discussões futuras sobre energia, proteção ambiental e inteligência artificial. Essas questões são cruciais para a soberania energética, ambiental e tecnológica dos dez países envolvidos.

A declaração emitida em Nova Délhi é um conjunto de princípios sem implementação automática. A transição desses três pilares para regras concretas, créditos financeiros e instituições representará o próximo desafio.

A competição com o G7 deixou de ser apenas uma demanda por representação; tornou-se um plano estratégico claro por poder. O primeiro teste desse novo direcionamento será a agenda relacionada à energia, meio ambiente e inteligência artificial designada por Nova Délhi à Pequim.