A inteligência artificial da Meta, que está incorporada ao WhatsApp, não permitiu a criação de cartazes que incluíssem o nome de Lula (PT) e o número 13. Por outro lado, conseguiu gerar imagens para Flávio Bolsonaro (PL), com o número 22, e Augusto Cury (Avante), utilizando o número 70. Essa informação foi revelada por meio de testes realizados pela CartaCapital nesta quarta-feira (14). Os pedidos consistiam em artes nas cores verde e amarelo, contendo os nomes e números dos candidatos. Para Flávio, a ferramenta criou um cartaz que incluía seu nome, seu número e as frases “Pátria, trabalho, liberdade” e “Pelo Brasil, com honra e confiança!”. Uma arte similar foi produzida para Cury, que trazia as mensagens “Por um Brasil forte” e “Trabalho, ordem, progresso”. Quando tentaram solicitar um cartaz com “Lula” e “13”, a ferramenta respondeu que não conseguiu gerar a imagem.
Quando questionada sobre essa recusa, a IA justificou que se tratava de um bloqueio automático do sistema de geração de imagens. Esse mecanismo pode impedir certas criações mesmo quando os pedidos são semelhantes a outros que foram atendidos. Em uma nova tentativa, a ferramenta afirmou ter bloqueado “essa combinação específica”, mas não ofereceu uma explicação técnica para essa disparidade.
Esse acontecimento se insere em um contexto mais amplo. A campanha de Lula acusa a Meta de dificultar a divulgação de conteúdos relacionados ao presidente enquanto favorece seus concorrentes. Na segunda-feira (12), a empresa admitiu ter enfrentado falhas técnicas em anúncios e publicações da campanha petista; no entanto, sustentou que as alegações de favorecimento são “falsas, não demonstradas e não resistem à verificação dos fatos”. A empresa também declarou que seus algoritmos não operam com base em critérios ideológicos e aplicam os mesmos parâmetros para todos os casos. Em resposta a essas alegações, a campanha de Lula informou que tomaria medidas junto ao TSE e à Agência Nacional de Proteção de Dados; o tribunal já fez perguntas à Meta sobre possíveis restrições.
A resolução 23.755/2026 do TSE proíbe que ferramentas de IA generativa tenham algum papel na recomendação ou influência sobre as escolhas eleitorais dos cidadãos, direta ou indiretamente. Isso inclui a proibição de ranqueamento ou priorização de candidatos e outras formas de favorecimento político-eleitoral. Caso se confirme um tratamento desigual como prática padrão, isso poderia ser considerado uma violação dessa norma. No entanto, até agora apenas foram realizados testes cujos resultados coincidem com as alegações da campanha de Lula; esses dados são insuficientes para estabelecer um padrão conclusivo.
Os limites desse teste informal são evidentes. A reportagem não esclarece quantas tentativas foram realizadas nem quais variações textuais foram utilizadas ou se a sequência dos pedidos influenciou os resultados obtidos. Não está claro se o bloqueio se aplica especificamente ao nome “Lula”, ao número 13 ou à combinação deles; também não há informações sobre possíveis filtros aplicados a figuras públicas em contexto eleitoral. Além disso, não houve controle nos testes realizados – como solicitar primeiro o cartaz de Lula e depois o de Flávio ou usar outros nomes e números diferentes. Contudo, permanece sem explicação a diferença nos resultados entre os candidatos: se existisse um filtro geral para pessoas reais relacionadas ao contexto eleitoral, ele deveria afetar igualmente Flávio e Cury.
A justificativa apresentada pela própria IA sobre um bloqueio automático não equivale a uma auditoria formal. As respostas fornecidas por chatbots sobre suas recusas são textos gerados automaticamente e não representam registros dos filtros realmente aplicados; essa interpretação é baseada na análise do funcionamento geral desses sistemas. Para confirmar um padrão seria necessário acessar os registros da empresa ou realizar testes repetidos por diferentes usuários com variações controladas – algo que tanto a Meta quanto o TSE poderiam investigar mais profundamente. Enquanto isso, embora reconheça falhas técnicas, a empresa nega qualquer tipo de favorecimento político; por sua vez, a campanha de Lula defende que essas falhas contribuem para um conjunto maior de problemas relacionados à distribuição e alcance das publicações.
