A empresa ByteDance, responsável pelo TikTok, se uniu à Alibaba e à Tencent para realizar um pedido conjunto de mais de 3 milhões de placas gráficas da Nvidia. O valor total do pedido ultrapassa 35 bilhões de dólares, equivalente a cerca de R$ 190 bilhões. Entretanto, a Nvidia informou a seus parceiros que pode enfrentar dificuldades para honrar essa entrega.
Essa informação foi revelada por uma reportagem da Reuters, divulgada pelo Taipei Times, que teve acesso a três fontes informadas sobre as negociações. Essas fontes optaram por manter o anonimato devido à falta de autorização para discutir o tema com a mídia.
Essa transação ilustra os efeitos colaterais do embargo tecnológico imposto pelos Estados Unidos contra Pequim. A Nvidia enfrenta uma perda significativa de receita em um dos maiores mercados globais de inteligência artificial, enquanto sua concorrente chinesa, Huawei, se beneficia ao assumir a demanda que a restrição buscava limitar.
O chip ainda permitido para venda
A RTX PRO 5500 é um processador destinado a estações de trabalho e computadores profissionais de alta performance, mas não é utilizado em centros de dados que treinam modelos avançados de inteligência artificial. Apesar disso, este chip ainda está entre os mais potentes da Nvidia e sua comercialização com a China continua permitida.
Em contrapartida, os processadores B300, voltados para centros de dados e pertencentes à nova linha Blackwell, estão proibidos para compradores chineses. Já o modelo H200 da geração anterior é avaliado individualmente e exige licença para venda.
A mudança nas regras não é algo recente. Em abril de 2025, a Nvidia registrou perdas contábeis de 5,5 bilhões de dólares (cerca de R$ 30 bilhões) quando Washington exigiu uma licença para comercializar o H20, uma versão adaptada para o mercado chinês que recebeu autorização meses depois.
Seis milhões de pedidos versus capacidade produtiva
A Nvidia informou a seus clientes que não pode garantir o atendimento completo dos pedidos realizados. Uma das fontes revelou que os compradores podem receber apenas entre 5% e 10% das quantidades requisitadas.
Outra fonte apontou um limite na produção: segundo estimativas do fornecedor, não serão fabricadas mais do que 3 milhões de placas RTX PRO 5500 até 2027, enquanto os pedidos oriundos da China já ultrapassam 6 milhões.
Essa escala nunca havia sido divulgada anteriormente. Cada placa tem um preço aproximado de 11.400 dólares (mais de R$ 61 mil), contribuindo assim para o total expressivo do pedido coletivo.
Esse cenário confirma que a demanda por chips produzidos nos Estados Unidos persiste apesar das barreiras comerciais e evidencia as dificuldades no suprimento na segunda maior economia mundial, onde empresas locais buscam desenvolver tecnologias avançadas.
De quase monopólio a quase nada
Jensen Huang, CEO da Nvidia, afirmou que as restrições reduziram drasticamente a participação da empresa no mercado chinês de chips destinados a centros de dados. De uma posição dominante, ele declarou que agora a Nvidia conta com “praticamente nada” nesse setor.
Um representante da empresa comentou que os fabricantes chineses especializados em chips para estações de trabalho têm experimentado um “crescimento sem precedentes desde 2022”, ano em que começaram as primeiras restrições dos Estados Unidos. Para a Nvidia, as empresas americanas continuam limitadas por “controles de exportação ultrapassados”, abrangendo produtos lançados há quase cinco anos e enfrentando limites impostos pela própria China às importações americanas.
Nenhuma das empresas mencionadas – ByteDance, Alibaba e Tencent – respondeu aos pedidos de entrevista. O Escritório de Indústria e Segurança do Departamento de Comércio dos Estados Unidos e o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China também permaneceram em silêncio sobre o assunto.
A migração do mercado para a Huawei
As restrições impostas pelos EUA têm levado empresas chinesas a buscar fornecedores locais, com incentivo claro do governo chinês à indústria nacional de semicondutores. A Huawei tem se destacado neste cenário com sua linha Ascend, mesmo enfrentando desafios para igualar o desempenho dos produtos concorrentes.
Um dos fatores atrasando esse desenvolvimento provém do exterior: limitações específicas restringem o acesso aos equipamentos estrangeiros necessários para produzir chips mais sofisticados.
Os compradores chineses estão principalmente interessados nas placas para utilização em inferência – fase em que modelos já treinados realizam tarefas específicas e respondem às solicitações dos usuários. Essa movimentação está alinhada ao plano do governo chinês em integrar a inteligência artificial em várias áreas da economia nacional.
No cenário global dos semicondutores, observa-se uma tendência crescente à divisão em blocos distintos com fornecedores variados e padrões diferentes entre eles. A China avança na direção da autossuficiência tecnológica enquanto as empresas americanas veem sua receita e influência diminuírem no setor anteriormente dominado por elas.
A falta das placas solicitadas nessa fila superior a seis milhões pode favorecer ainda mais a Huawei, que já está conquistando espaço no mercado chinês. As barreiras criadas para conter o avanço tecnológico da China podem acabar fortalecendo exatamente aquele concorrente que se pretendia limitar.
