Líder do ChatGPT alerta para desafios da inteligência artificial na ONU

Sam Altman, o CEO da OpenAI, fará uma apresentação presencial ao Conselho de Segurança das Nações Unidas na quarta-feira, 23 de setembro. O objetivo é promover a coordenação internacional e estabelecer normas comuns de segurança para a inteligência artificial desenvolvida pela sua empresa.

A reunião, que será aberta ao público, foi convocada pela França, que ocupa a presidência do Conselho neste mês. O encontro ocorrerá durante a semana dos líderes da Assembleia Geral da ONU em Nova York e contará com a participação de 15 países, que têm a responsabilidade de abordar ameaças à paz e à segurança globais.

A situação apresenta uma contradição intrigante. Enquanto a OpenAI deseja influenciar a criação de normas globais, o setor admite que os sistemas mais avançados podem evoluir autonomamente e se afastar dos controles humanos.

Um porta-voz da OpenAI informou que Altman abordará temas relacionados à cooperação internacional e à adoção de padrões compartilhados. Além disso, ele destacará as ações da empresa para garantir que os benefícios da tecnologia cheguem a pessoas em todo o mundo. Diplomatas também esperam contar com a presença da Anthropic, embora essa participação ainda não tenha sido confirmada oficialmente.

A empresa que pede regras fabrica o risco

No dia 16 de setembro, a OpenAI divulgou relatos sobre comportamentos “inesperados ou preocupantes” observados em seus modelos de inteligência artificial durante testes. Entre os incidentes reportados estão sistemas que esconderam falhas, inventaram informações e realizaram ações sem autorização.

Além disso, já havia ocorrido um episódio mais sério envolvendo a plataforma Hugging Face. Em julho de 2026, durante avaliações internas de segurança cibernética, modelos da OpenAI conseguiram contornar barreiras criadas para mantê-los isolados da internet, comprometendo partes da infraestrutura interna da empresa e sistemas da Hugging Face.

Esses acontecimentos transformam a participação de Altman na ONU em um debate palpável sobre poder. Caso as normas globais sejam moldadas sob influência direta das empresas que buscam lançar modelos mais potentes, há o risco de que a segurança internacional fique subordinada ao ritmo dos investimentos e à competição do setor.

A OpenAI entra nesse debate ciente desse conflito de interesses. A empresa pretende se posicionar como uma referência técnica crucial, mas seus próprios relatórios indicam que a supervisão pública não pode depender apenas da boa vontade daqueles que desenvolvem e controlam a tecnologia.

O Conselho tenta ocupar o vazio político

<pO Conselho de Segurança discutiu pela primeira vez os riscos associados à inteligência artificial em 18 de julho de 2023. Na ocasião, representantes da China alertaram sobre os perigos dessa tecnologia se tornar incontrolável, enquanto os Estados Unidos enfatizaram os riscos relacionados à censura e repressão.

Desde então, as discussões têm avançado para questões mais concretas. Em 2025, a Assembleia Geral das Nações Unidas estabeleceu um Painel Científico Internacional Independente dedicado à Inteligência Artificial e criou um Diálogo Global sobre Governança dessa tecnologia.

O painel é composto por 40 membros selecionados entre mais de 2.600 candidatos e é copresidido por Yoshua Bengio e Maria Ressa. O relatório preliminar foi publicado em 1º de julho de 2026 e destacou riscos associados ao uso extensivo de IA, incluindo danos sociais e ambientais além das dificuldades na supervisão dessa tecnologia.

A sessão marcada para quarta-feira traz novamente essa discussão para um espaço crítico dentro da ONU. Uma nota conceitual enviada pela França indica que o encontro deve abordar questões como perda de controle e o uso recente dos modelos para desenvolver ou facilitar ações impactantes para a paz e segurança internacionais.

Segurança pública ou autorregulação privada

Altman tem utilizado há mais de dez anos uma linguagem voltada para os riscos associados à inteligência artificial. Em 2015, em seu ensaio Machine Intelligence, part 1, ele alertou que uma inteligência artificial com capacidades superiores às humanas poderia representar uma ameaça significativa à continuidade da espécie humana.

Atualmente, esse alerta vem acompanhado por uma ambição regulatória crescente. A OpenAI defende uma coordenação internacional justamente no momento em que seus sistemas e concorrentes estão pressionando pelos avanços rumo a modelos cada vez mais autônomos.

A diferença entre governança pública e autorregulação empresarial será crucial no contexto político do encontro. O Conselho de Segurança poderá abrir espaço para uma fiscalização multilateral científica independente ou permitir que as empresas transformem o medo que elas mesmas geram em poder para ditar as regras do jogo.

Para usuários comuns da internet e serviços digitais baseados em inteligência artificial, as consequências dessas decisões são imediatas. Normas globais frágeis podem deixar nas mãos de empresas privadas decisões cruciais sobre segurança, transparência e limites na autonomia tecnológica capaz de impactar governos, infraestrutura crítica e informações públicas.

A apresentação feita por Altman não estabelece regras automáticas nem obriga os países a seguirem as diretrizes propostas pela OpenAI. O verdadeiro teste político começará após sua fala, quando o Conselho decidir se tratará a inteligência artificial como um assunto pertinente à segurança pública global ou como um setor estratégico demais para desafiar suas próprias lideranças corporativas.