Dependência digital gera discussão sobre a responsabilidade das redes sociais

Recentemente, o uso crescente das redes sociais tem chamado a atenção de especialistas e do sistema jurídico, especialmente após decisões que determinaram que empresas como Alphabet e Meta deveriam pagar indenizações de US$ 3 milhões devido a problemas relacionados ao comportamento dos usuários no ambiente digital. O que antes era visto apenas como uma forma de entretenimento ou interação social agora é analisado sob a ótica da saúde mental, suscitando discussões sobre padrões de uso excessivo e os mecanismos que podem incentivar a permanência prolongada nas plataformas.

Nesse contexto, o debate se expande para compreender como esse engajamento constante é moldado e quais elementos contribuem para essa dinâmica. A maneira como o conteúdo é distribuído, juntamente com as estratégias de criadores que buscam aumentar seu alcance e interação, cria um cenário propício para o consumo incessante. Assim, a discussão abrange não apenas o papel das empresas tecnológicas, mas também a dinâmica de produção de conteúdo e os limites entre estratégias digitais e potenciais efeitos de dependência.

A professora Carolina Frazon Terra, especialista em Comunicação Digital e Mídias Sociais da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, aponta que as plataformas digitais são projetadas para manter os usuários online por longos períodos, promovendo um scrolling infinito e um engajamento crescente com as postagens. “A dinâmica dos vídeos curtos e imagens rápidas atua como um mecanismo viciante”, afirma ela.

Segundo Carolina, aplicativos como Instagram, X, Snapchat e TikTok possuem características que favorecem seu uso contínuo. Ao pular um conteúdo em favor do próximo, o usuário acaba treinando o algoritmo da plataforma, que passa a oferecer mais conteúdos alinhados aos seus interesses. Esse processo está intimamente relacionado ao conceito de scroll infinito, uma estrutura desenvolvida para capturar a atenção do usuário por mais tempo.

A utilização do termo “vício em redes sociais” é comparável a outros tipos de vícios presentes na vida humana, como dependência alimentar, alcoolismo ou até mesmo vícios em jogos de azar. “Isso fica evidente na punição sem precedentes imposta pela justiça americana. O autor Byung-Chul Han discute em suas obras que as redes sociais são aditivas e projetadas para nos manter nelas pelo máximo possível de tempo. Isso ocorre porque essas plataformas dependem da receita publicitária; quanto mais audiência e tempo de tela disponível houver, maior será a venda de anúncios pelas marcas”, complementa Carolina.

Algoritmos e a lógica do engajamento

Enquanto se debate a responsabilização das plataformas digitais, surge também uma discussão sobre o papel dos criadores de conteúdo nesse cenário. Esses profissionais participam ativamente da dinâmica ao elaborar materiais com o intuito de maximizar seu alcance e engajamento. “Esses criadores são trabalhadores das plataformas e estão sujeitos às regras impostas por elas. Para conseguir viralizar e monetizar seu conteúdo, precisam entender como funciona aquela rede social específica”, explica a professora.

Carolina menciona influenciadores que fazem streaming constante de suas vidas diárias porque acreditam que esse tipo de conteúdo irá atrair o interesse dos seguidores. “Observamos também criadores que adotam uma abordagem voltada para conteúdos polêmicos ou questionáveis para aumentar visualizações e assim garantir maior monetização”, observa.

Responsabilidade dos criadores

A presença de líderes como Mark Zuckerberg em tribunais sugere uma tentativa de defesa das plataformas e uma construção estratégica da imagem pública frente à opinião popular, sem necessariamente implicar mudanças genuínas em seus comportamentos. “Essas figuras sempre estão na defensiva, argumentando sobre o livre-arbítrio dos usuários no uso das plataformas e afirmando que existem mecanismos de controle disponíveis. Contudo, não creio que essa simples presença nesses contextos represente uma mudança real; parece mais um jogo de poder para aparentar acessibilidade”, argumenta Carolina.

Regulação e controle

Sobre possíveis soluções para mitigar os efeitos negativos do uso excessivo das redes sociais, a professora destaca a necessidade de ferramentas de controle oferecidas pelas próprias plataformas. “É crucial que existam recursos permitindo aos usuários gerenciar seu tempo online e fazer escolhas mais conscientes sobre sua permanência nesses ambientes. Para menores, esses mecanismos devem possibilitar aos responsáveis monitorar e limitar o acesso”, ressalta.

Carolina também enfatiza a importância da regulamentação nesse contexto. “Outra alternativa é estabelecer diretrizes mais claras relacionadas ao uso dessas plataformas por crianças e adolescentes. Em países como Austrália já existem restrições para menores de 15 anos. No Brasil também avançamos com medidas como a proibição do uso celular nas escolas durante o horário escolar”, conclui.