A pesquisa da CNT, divulgada nesta terça-feira, revela uma situação que inquieta tanto o cenário político quanto os apoiadores do bolsonarismo: Luiz Inácio Lula da Silva está na liderança da disputa presidencial com 41,8% das preferências para o primeiro turno. Entretanto, apenas 21,3% da população brasileira se identifica como pertencente à esquerda. Essa diferença significativa entre as intenções de voto e a autodeclaração ideológica indica que o apoio a Lula provém de um eleitorado mais amplo e pragmático do que muitas vezes é discutido.
Conforme a 168ª Rodada da Pesquisa CNT de Opinião, realizada em conjunto com o Instituto MDA e publicada pelo Poder360, Lula supera o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que registra 28,2% nas intenções de voto estimuladas. Em um possível segundo turno, o presidente alcança 49,3%, enquanto seu oponente fica com 36,8% das intenções.
Um dado particularmente revelador se encontra na percepção que os eleitores têm de si mesmos. Quando indagados sobre sua identificação política, 40% afirmam não se alinhar a nenhum espectro ideológico. Entre aqueles que se posicionam, 34,9% se consideram de direita e 25,1% de esquerda — esse número reduz para 21,3% quando a pergunta é feita em termos binários. Isso sugere que os eleitores que se autodenominam da esquerda são minoria; no entanto, isso não impede que votem em Lula.
O quadro é evidente: Lula atrai um grupo que rejeita tanto o radicalismo quanto a desordem associada ao bolsonarismo, mas que também não se identifica com uma militância partidária. Esse eleitorado inclui trabalhadores informais, donas de casa e pequenos empresários que recordam tempos de prosperidade econômica e acesso facilitado ao crédito. A questão aqui não é ideológica; trata-se de experiências passadas e necessidades cotidianas.
Por outro lado, Flávio Bolsonaro enfrenta um dilema curioso. Apesar de um terço dos eleitores brasileiros se identificarem como de direita, ele permanece estagnado nos 28,2% e mal ultrapassa um terço no segundo turno. O bolsonarismo herdado de Jair Bolsonaro enfrenta uma rejeição alarmante — conforme outro estudo do Instituto Nexus, a reprovação ao senador chega a 52% — e não consegue expandir seu alcance além dos já convencidos. O discurso agressivo e os escândalos sem explicação contribuem para criar um teto rígido que os dados da CNT corroboram.
A pesquisa também elucida por que o antipetismo perdeu força em relação a campanhas anteriores onde foi determinante. Lula lidera com quase metade do eleitorado no segundo turno porque muitos o veem como um símbolo de estabilidade em um contexto internacional conturbado e diante de uma oposição sem proposta clara. Enquanto o bolsonarismo é visto como uma ameaça às instituições democráticas, o petismo ressoa especialmente entre aqueles sem forte ideologia como um período em que as condições de vida eram favoráveis.
Esse cenário não surpreende quem acompanha a trajetória política do presidente. Em 2022, Lula conquistou votos de segmentos que nunca se consideraram alinhados à esquerda, desde setores moderados do agronegócio até evangélicos insatisfeitos. Agora, a CNT demonstra que esse fenômeno ocorre com ainda mais clareza. Embora barulhenta, a direita não representa a maioria — enquanto isso, o campo popular pode dialogar com essa maioria silenciosa quando abandona dogmas em busca de um país mais equitativo e harmonioso.
Com a campanha apenas começando, os dados da CNT servem como um alerta para os defensores do bolsonarismo: as eleições não serão decididas na batalha ideológica das redes sociais, mas nas ruas onde as vidas acontecem. E nesse espaço físico, Lula tem vantagem não por ser rotulado como esquerdista, mas porque foi — e ainda pode ser — o presidente responsável por transformações significativas no cotidiano das pessoas. Essa base vai além dos rótulos impostos — uma realidade que intimida qualquer adversário.
