A partir desta quarta-feira (22), uma nova sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros será implementada pelo governo dos Estados Unidos, liderado por Donald Trump. Essa decisão resulta de uma investigação realizada pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR). A medida é especialmente significativa, pois ocorre em um momento em que as exportações brasileiras para os EUA já haviam registrado um recuo considerável no primeiro semestre de 2026, alcançando seu nível mais baixo desde que a série histórica foi iniciada em 1997, conforme apurado pela Câmara Americana de Comércio no Brasil (Amcham Brasil) e publicado por O Globo.
No período entre janeiro e junho, as exportações do Brasil para o mercado americano totalizaram US$ 17,4 bilhões, apresentando uma diminuição de 13% em comparação ao mesmo intervalo de 2025. Essa redução fez com que a participação dos Estados Unidos nas exportações totais brasileiras caísse para apenas 9,4%, a menor marca já registrada. No mesmo semestre, a corrente de comércio bilateral (soma das importações e exportações entre os dois países) encolheu 12,8%, alcançando US$ 36,4 bilhões.
Um panorama detalhado: variação por categoria
O levantamento da Amcham revelou dados significativos quando analisados por categoria de produto. Entre os dez principais itens exportados pelo Brasil para os EUA, os cinco que foram diretamente afetados pela nova tarifa apresentaram quedas acentuadas: o café não torrado teve uma queda de 34,8%, o petróleo bruto caiu 30,4%, os semi-acabados de ferro ou aço recuaram 21,7%, a celulose perdeu 9,4% e o ferro-gusa teve uma retração de 1,2%.
Por outro lado, os cinco produtos que não sofreram a tarifação — como aeronaves, carne bovina, equipamentos de engenharia, máquinas de energia elétrica e óleos combustíveis — não apenas se mantiveram estáveis como também registraram aumento nas vendas. A carne bovina destacou-se com um crescimento de 41%, seguida por aeronaves (+32,9%), equipamentos de engenharia (+23,8%), máquinas de energia elétrica (+16%) e óleos combustíveis (+13,7%).
Esse contraste nos números reforça um padrão claro: segundo a Amcham, enquanto os produtos que foram sobretaxados apresentaram uma queda média de 16,6% no semestre, aqueles isentos registraram um recuo bem menor de apenas 8,7%. Isso indica que a nova tarifa é um fator crucial na diminuição das vendas e não apenas uma desaceleração geral da demanda americana.
Detalhes da nova sobretaxa
A tarifa adicional que começa a valer hoje complementa as ações já implementadas desde agosto de 2025 e é fruto da Seção 301 — um mecanismo comercial dos EUA destinado a punir práticas consideradas desleais entre parceiros comerciais. Embora cerca de 60% das exportações brasileiras para os EUA estejam cobertas por isenções, muitos produtos manufaturados ficaram excluídos dessa proteção. Como resultado, o novo impacto recai principalmente sobre setores industriais que já enfrentavam dificuldades significativas.
<p"O cenário é preocupante", afirmou Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil. Ele enfatizou a necessidade urgente de um acordo bilateral. O primeiro semestre já demonstra que o comércio entre as duas nações enfrenta sérias pressões e a falta de negociação pode tornar ainda mais desafiadoras as trocas comerciais diante da implementação das novas tarifas da Seção 301.
Diversificação nas exportações: um caminho alternativo
Apesar do declínio nas vendas para os EUA, o Brasil conseguiu aumentar suas exportações totais em 11,5% durante o semestre. Esse crescimento foi impulsionado principalmente pelas vendas para a China (+21,9%) e União Europeia (+12,8%). Um levantamento anterior baseado em dados da ApexBrasil já indicava que as vendas adicionais para esses mercados somaram R$ 16,1 bilhões no mesmo período — mais do que seis vezes o prejuízo registrado com as exportações aos Estados Unidos. Aproximadamente 72% das cerca de 2.400 empresas apoiadas pela agência conseguiram expandir seus mercados ou aumentar suas vendas para outros destinos.
Perspectivas incertas e desafios à frente
Embora tenha havido um declínio significativo nas exportações ao longo do semestre, junho trouxe sinais positivos: as vendas brasileiras para os EUA aumentaram em valor em 3,7%, embora tenham diminuído em volume físico — essa alta foi impulsionada mais por preços do que pela demanda real. As importações brasileiras provenientes dos Estados Unidos também caíram em 12,5% nesse período devido à forte redução nas compras de máquinas e motores (76%).
O futuro apresenta incertezas contínuas. Além da possibilidade iminente de novas tarifas decorrentes da Seção 301, a Amcham destaca como risco adicional a instabilidade geopolítica no Oriente Médio. Esse fator já tem elevado os preços dos derivados de óleo e gás — uma pressão externa adicional sobre as relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.
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