Na quarta-feira (19), durante uma sabatina organizada pelo Sistema Verdes Mares — a primeira de uma série dedicada aos candidatos ao governo do Ceará —, Ciro Gomes (PSDB) se absteve de apoiar qualquer candidato na corrida presidencial. No entanto, deixou claro que não estará ao lado de Lula (PT) nem de Flávio Bolsonaro (PL) até o mês de outubro.
“Não sou nem Lula, nem Bolsonaro”
Ao ser questionado sobre sua posição nas eleições nacionais, Ciro fez referência à sua própria trajetória política: “Eu, Ciro Gomes, já me candidatei à presidência do Brasil quatro vezes. Em duas dessas ocasiões, disputei contra Lula e Bolsonaro. Portanto, não sou nenhum deles; não se trata de ser contra, mas sim de apoiar um outro caminho para o Brasil. Acredito que essa polarização está prejudicando o país e que esse clima de hostilidade está destruindo a nação.”
O candidato afirmou que pretende apoiar algum nome na corrida presidencial antes da eleição, mas que essa decisão ainda está sendo discutida em conjunto com o senador Tasso Jereissati, principal responsável por seu retorno ao PSDB. Ele enfatizou que o processo decisório deve respeitar as diversas opiniões dentro da aliança que o lançou como candidato no Ceará: “Primeiramente, é fundamental respeitar meus aliados. Não solicitei que vendessem suas almas; pedi apenas que me ajudassem a construir um movimento de mudança no Ceará onde cada um possa agir conforme suas convicções.”
“O PSDB passou por dificuldades”
Um dos pontos mais significativos da entrevista foi a confissão de Ciro sobre a crise enfrentada pelo próprio partido na disputa presidencial. Ele mencionou que o “PSDB passou por dificuldades” após ele e o deputado federal Aécio Neves decidirem não se candidatar ao Palácio do Planalto nesta eleição — uma alusão ao convite prévio feito ao candidato para liderar uma candidatura presidencial centrada, que foi recusado em maio em favor da disputa estadual no Ceará. Essa declaração evidencia a falta de liderança nacional da legenda justamente quando tenta explorar sua maior aposta fora do eixo Sul-Sudeste: a candidatura de Ciro ao governo cearense.
A formação da chapa com antigos adversários
Ciro também abordou a composição de sua chapa opositora, que inclui nomes com os quais historicamente teve desavenças políticas — como o candidato a vice-governador Roberto Cláudio (União Brasil), o deputado federal André Fernandes (PL) e Capitão Wagner (União Brasil), concorrendo ao Senado.
Conforme relatou o tucano, essa aproximação teve início em diálogos diretos com Tasso Jereissati sobre a possibilidade de unir diferentes vertentes da oposição cearense: “É viável reunir essa nova geração independentemente das nossas diferenças, pensando no bem do Ceará?”
Ele acrescentou que dessa articulação surgiu sua candidatura inesperada: “A única novidade é que dessa dinâmica nasceu minha candidatura, algo que não previa. (…) Se eu trouxer a discussão nacional para cá, meu irmão, a internet é implacável.”
A entrevista faz parte de uma série promovida pelo Diário do Nordeste, Verdinha FM e TV Diário com todos os candidatos ao governo do Ceará. Ciro foi o primeiro entrevistado e nesta quinta-feira (20), no mesmo horário, será a vez do governador Elmano de Freitas (PT). As regras estabelecidas pela emissora determinam que apenas candidatos com pelo menos 5% nas intenções de voto na última pesquisa Quaest — contratada pelo Sistema Verdes Mares — têm direito a uma entrevista ao vivo de 50 minutos; os demais concorrentes (Vera Lúcia, Delegado Huggo, Zé Batista, Serley Leal, Danilo Soares e Ieri Braga) participarão de sabatinas mais curtas com duração de dez minutos entre 21 e 28 de agosto.
A postura neutra adotada por Ciro em relação à disputa presidencial — mesmo sendo membro do PSDB sem um candidato próprio à presidência — reforça uma estratégia observada ao longo do ano: manter o debate estadual desvinculado da polarização nacional para evitar que as opiniões sobre Lula e Flávio Bolsonaro influenciem negativamente sua imagem no Ceará.
Com uma vantagem considerável nas pesquisas mais recentes, essa cautela nos discursos parece ser uma estratégia calculada para abranger um espectro amplo de eleitores — desde os históricos antipetistas até moderados incomodados com a polarização — sem se comprometer prematuramente em uma disputa nacional cada vez mais acirrada conforme apontam as últimas pesquisas.
