Jacob Coxon, pesquisador de 27 anos, deixou a Anthropic por temer que a corrida empresarial da inteligência artificial produza sistemas capazes de escapar do controle humano. A ausência de uma regulamentação federal específica nos Estados Unidos deixa pessoas, empresas e serviços públicos mais expostos a ataques cibernéticos e outros danos enquanto os modelos avançam.
Coxon trabalhava no treinamento de novos sistemas a partir de grandes volumes de dados. Ele havia trocado a OpenAI pela Anthropic no início de 2026, atraído pela reputação da empresa no campo da segurança. Pediu demissão na terça-feira (8) e deixou a área, em entrevista ao jornal Wall Street Journal.
Segundo ele, Anthropic e OpenAI estão “apostando com as nossas vidas” ao correr para construir uma superinteligência capaz de se aperfeiçoar sozinha. Coxon afirmou ainda que quem constrói esses sistemas acredita, sinceramente, que eles “poderiam matar todos nós até o fim da década”.
“Estamos a caminho de muitos dos cenários mais agressivos, nos quais, até o fim do próximo ano, as coisas já poderiam estar fora de controle”, afirmou. Na avaliação do pesquisador, a competição entre companhias estadunidenses e chinesas pressiona as equipes a trocar cautela por velocidade.
Temor envolve sistemas que melhoram a si próprios
A preocupação central de Coxon recai sobre a possibilidade de modelos aprenderem a ampliar suas próprias capacidades. Esse processo, conhecido como autoaperfeiçoamento, poderia acelerar o desenvolvimento tecnológico e dificultar a intervenção humana.
A previsão permanece uma hipótese. Os sistemas disponíveis ainda dependem de infraestrutura, dados, energia, programação e autorização humanas, e não há prova de que possam iniciar por conta própria uma escalada ilimitada de capacidade.
Coxon reconheceu que os esforços de segurança da Anthropic eram sinceros. Concluiu, mesmo assim, que nenhuma companhia conseguiria desenvolver de forma responsável uma inteligência artificial geral, a chamada IAG, capaz de superar pessoas em uma ampla variedade de tarefas, sem fiscalização pública e desaceleração coordenada do setor.
A Anthropic não comentou imediatamente a saída. Dario Amodei, diretor-executivo da companhia, também vem alertando para comportamentos inesperados dos modelos e para os riscos de uma disputa comercial sem limites comuns.
Ataques cibernéticos elevam o risco
Coxon citou episódios recentes nos quais ferramentas da OpenAI e da Anthropic foram empregadas em operações cibernéticas. Testes com grupos de agentes também registraram sistemas perseguindo objetivos prejudiciais e tentando ocultar ações dos operadores humanos.
Esses casos não demonstram que uma IA tenha conquistado autonomia plena. Eles mostram que sistemas mais capazes já podem reduzir o tempo e o conhecimento necessários para localizar vulnerabilidades, automatizar etapas de ataques e ampliar a escala de uma operação criminosa.
Sam Altman, diretor-executivo da OpenAI, reconheceu a urgência do problema durante uma reunião com autoridades do Grupo dos Vinte, o G20, na Carolina do Norte. “Eu acho que algumas coisas vão dar muito errado com a cibersegurança, a menos que as pessoas ajam com bastante urgência”, afirmou.
Jakub Pachocki, cientista-chefe da OpenAI, também defendeu “extrema cautela”. As advertências se somam a manifestações de mais de mil pesquisadores de IA por regras comuns e mecanismos capazes de impedir que uma empresa obtenha vantagem ao ignorar precauções adotadas pelas concorrentes.
Trump acelera corrida sem criar regras federais
O governo de Donald Trump escolheu priorizar o potencial econômico da tecnologia. Ao voltar à Casa Branca, o presidente revogou a ordem executiva de Joe Biden que estabelecia obrigações de segurança para modelos avançados e determinou a remoção de barreiras ao desenvolvimento da IA.
O Plano de Ação para a Inteligência Artificial apresentado pela administração Trump em 2025 colocou a liderança econômica dos Estados Unidos, a construção de infraestrutura e a disputa internacional no centro da política federal. O país continuou sem uma lei nacional abrangente que imponha testes independentes, comunicação obrigatória de incidentes ou responsabilidade uniforme às desenvolvedoras.
Esse vazio transforma a velocidade das empresas em política pública na prática. Os ganhos ficam concentrados nas companhias que controlam modelos, centros de processamento e dados, enquanto falhas de segurança podem atingir redes de saúde, bancos, órgãos governamentais e usuários sem participação nas decisões.
A saída de Coxon não prova que uma perda de controle esteja próxima. Ela expõe um conflito concreto dentro da indústria entre pesquisadores que pedem limites coletivos e um governo que aposta na aceleração econômica sem estabelecer quem responderá pelos danos.
