Animais protegidos em seus países de origem atravessam a América do Sul com licenças fraudulentas emitidas no Peru e chegam ao mercado de Chatuchak, em Bangkok, dentro de uma cadeia que aparenta legalidade. A rota amplia a retirada de fauna amazônica e dificulta a apreensão dos exemplares pelas autoridades tailandesas.
Traficantes levam ao Peru espécies capturadas em outros países sul-americanos e adulteram sua origem antes da exportação. As regras peruanas tornaram esse trecho o ponto mais vulnerável do caminho entre a Amazônia e o Sudeste Asiático.
Licença fraudulenta encobre a captura
A Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (Cites) controla o trânsito internacional de animais por meio de licenças expedidas pelas autoridades nacionais. Quando o documento declara uma procedência falsa, a fiscalização no destino recebe uma carga que parece regular.
O mecanismo insere animais retirados da natureza numa cadeia formal de exportação. Uma espécie protegida no país onde foi capturada pode cruzar a fronteira peruana e reaparecer nos registros como um exemplar autorizado para o comércio.
A fragilidade não transforma toda exportação peruana em tráfico nem torna ilegal cada animal encontrado em Chatuchak. Ela oferece aos criminosos um meio de esconder a captura e reduz a capacidade da Cites de rastrear a procedência real da fauna.
Espécies sul-americanas ocupam o mercado
Scott Roberton, chefe do programa de combate ao tráfico da Sociedade para a Conservação da Vida Selvagem (WCS, na sigla em inglês), visita Chatuchak a cada poucas semanas. Nos últimos dois anos, ele observou aumento no volume e na diversidade de espécies sul-americanas, sobretudo saguis e outros primatas.
As lojas oferecem tartarugas matamatá da Bacia Amazônica, jabutis-do-chaco, araras, macacos-prego, micos, saguis, quatis e capivaras. Roberton também identificou maras, mamíferos da Argentina semelhantes a lebres, entre as chegadas mais recentes.
A presença brasileira aparece com nitidez na seção de peixes. O acari-zebra, endêmico de um pequeno trecho do rio Xingu, divide tanques, sacos plásticos e recipientes com pirararas e arraias de água doce.
O comércio reúne ainda espécies da África, da Ásia, da Oceania e da América do Norte. Animais silvestres ficam em gaiolas pequenas, muitas vezes com pouca água e expostos a temperaturas superiores a 32°C.
Muitos exemplares capturados na Amazônia enfrentam viagens intercontinentais em condições inadequadas. Parte morre antes de alcançar o mercado asiático, o que significa que o número retirado da natureza supera o total exposto nas lojas.
Venda permitida não elimina ameaça
Nem todos os animais encontrados em Chatuchak pertencem ao comércio ilegal. A autorização de venda, contudo, não informa se a captura respeitou as normas do país de origem nem afasta o risco de extinção.
Um levantamento realizado em 2015 pela organização de monitoramento do comércio de fauna TRAFFIC encontrou no mercado 17 espécies de aves classificadas como ameaçadas ou quase ameaçadas pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. Mais da metade era nativa da Tailândia, e os pesquisadores consideraram que as aves haviam sido capturadas na natureza.
A WCS usa as visitas frequentes para identificar mudanças nas espécies oferecidas e nas rotas internacionais. O aparecimento contínuo de novos animais sul-americanos indica que os traficantes adaptam o catálogo às brechas disponíveis.
O controle dessa rota depende de verificar a procedência antes que a licença peruana seja aceita como prova suficiente de legalidade. Sem essa checagem, animais retirados da Amazônia continuarão chegando a Bangkok com documentos capazes de esconder o país onde foram capturados.
