Haddad e Tarcísio encerram debate em São Paulo com menções a Flávio Bolsonaro

Uma questão sobre economia provocou uma resposta que extrapolou as fronteiras brasileiras. Durante um debate transmitido pela Globo na terça-feira, 29 de setembro de 2026, Fernando Haddad disparou: “Vocês querem o Milei aqui, né? Vocês forneciam osso e agora querem carne de burro”, em resposta à solicitação de Tarcísio de Freitas sobre um marco fiscal.

As palavras de Haddad ligaram a situação da Argentina sob Javier Milei ao embate pelo governo de São Paulo. Tarcísio respondeu mencionando que “Milei pegou uma situação muito complexa lá e está indo bem”, defendendo o presidente argentino.

Vale ressaltar que Milei não foi uma novidade no debate daquela noite, já que Tarcísio o havia condecorado com a Ordem do Ipiranga em julho de 2026, conforme informações anteriores.

O evento, realizado nos estúdios da Globo em São Paulo, contou com quatro blocos e perguntas feitas entre os próprios candidatos, mediado por Alan Severiano. O debate se estendeu por cerca de duas horas e se encerrou na madrugada de quarta-feira, 30 de setembro de 2026. Apenas Tarcísio, do Republicanos, e Haddad, do PT, estiveram no palco, uma vez que a emissora convida apenas partidos com pelo menos cinco representantes no Congresso.

A plateia foi dividida entre os apoiadores dos dois candidatos. Tarcísio trouxe aliados como o prefeito Ricardo Nunes e o ex-ministro Ricardo Salles, enquanto Haddad contava com a presença da ministra Simone Tebet e da ambientalista Marina Silva.

Embora a disputa fosse pelo governo paulista, as discussões frequentemente remetiam à política nacional. Haddad criticou a administração de Jair Bolsonaro durante a pandemia e atribuiu cerca de R$ 200 bilhões em déficit à gestão do ex-ministro Paulo Guedes.

Tarcísio revidou as críticas ao governo Lula, acusando-o de “negacionismo fiscal” e mencionando casos de recuperação judicial de empresas, incluindo o caso das Casas Bahia.

O ex-ministro da Fazenda também trouxe Lula à conversa ao falar sobre a renegociação das dívidas do estado e do programa Carbono Oculto. O senador Flávio Bolsonaro foi outro tema abordado por Haddad: “Se Flávio for eleito, vai travar tudo”, alertou ele durante o debate.

A segurança pública foi um dos tópicos mais intensos discutidos. Haddad questionou o aumento da influência do Comando Vermelho nas cidades como Rio Claro e Piracicaba e mencionou um “recorde de feminicídio” no estado.

A pergunta mais contundente veio quando Haddad questionou Tarcísio sobre Milton Leite, preso em 18 de setembro de 2026 na operação Vectura Corrupta: “Ninguém te informou que você não devia subir no palanque pra pedir voto pra uma pessoa que 15 dias depois seria presa?”, indagou.

Tarcísio respondeu que seu relacionamento sempre foi institucional e replicou a crítica citando o vereador Senival Moura, do PT, também envolvido no mesmo escândalo. Quanto ao Comando Vermelho, o governador apontou para uma queda nos indicadores criminais e mencionou foragidos do Primeiro Comando da Capital (PCC) vindo da Bolívia. Contudo, o Estadão Verifica considerou enganosa a afirmação sobre a redução geral dos índices criminais, já que os feminicídios aumentaram no estado: foram 195 em 2022 para 221 em 2023 e 270 em 2025.

São Paulo aguardava pela segunda hora

Conforme a discussão avançava para assuntos relacionados ao estado, já se passava tempo considerável. Temas como Sabesp, tarifas de pedágio e concessões para o metrô somente foram abordados na metade do terceiro bloco; a educação só foi discutida quase à meia-noite.

No trecho dedicado à educação, destacou-se um momento provocativo entre os candidatos. Tarcísio questionou: “Por que recebemos o selo ouro do MEC então?”.

Haddad rapidamente rebateu: “Selo ouro? Ninguém sabe o significado disso”. Essa premiação realmente existe; trata-se do Selo Nacional de Compromisso com a Alfabetização concedido ao estado com grau ouro em março de 2026 devido aos resultados alcançados em 2024.

Após o término do debate, ambos fizeram avaliações sobre o formato do encontro. Tarcísio comentou que “o formato favoreceu isso” ao ser questionado sobre a predominância dos temas nacionais. Já Haddad elogiou “o melhor modelo de debate” que tinham vivenciado.

Uma pesquisa da Quaest divulgada na mesma terça-feira ouviu 1.800 eleitores entre os dias 25 e 28 de setembro com margem de erro de dois pontos percentuais. Os dados mostraram Tarcísio liderando com 44% das intenções de voto no primeiro turno contra os 24% atribuídos a Haddad — uma diferença significativa cinco dias antes da eleição.

Tarcísio tem 51 anos e é engenheiro militar formado pelo Instituto Militar de Engenharia; atuou como ministro da Infraestrutura durante o governo Bolsonaro entre 2019 e 2022. Ele venceu as eleições anteriores com 55,27% dos votos válidos — cerca de 13,4 milhões — conquistados em 566 cidades enquanto perdeu na capital para Haddad.

Haddad possui 63 anos; é advogado com mestrado em Economia e doutorado em Filosofia pela USP; é filiado ao PT desde sua fundação em 1983 e leciona na universidade. Foi prefeito da capital paulista entre 2013 e 2016 além de ter ocupado a posição de ministro da Fazenda até março deste ano quando saiu para concorrer novamente ao governo estadual.

No pleito presidencial anterior em 2018, Haddad obteve cerca de 47 milhões de votos mas acabou sendo derrotado por Bolsonaro no segundo turno.

Este debate foi a quarta interação entre os dois desde as eleições anteriores realizadas em 2022 e também foi o segundo promovido pela Globo — onde ocorreu o último embate daquela eleição estadual. O único encontro anterior nesta campanha aconteceu na Band no dia 9 agosto deste ano, igualmente restrito aos dois candidatos pelo critério dos cinco parlamentares.

No final da corrida eleitoral passada em 2022, Tarcísio havia faltado aos debates organizados pelo Estadão e SBT integrados num pool midiático; nesta terça-feira ambos permaneceram até o fim das discussões apenas cinco dias antes das eleições.

Tarcísio citou Flávio Bolsonaro apenas uma vez nas considerações finais: “Meu candidato é Flávio Bolsonaro”, afirmou sobre sua preferência para as eleições presidenciais futuras. Por sua vez, Haddad escolheu atacar Flávio também nas conclusões ao declarar: “Flávio Bolsonaro é uma ameaça pro país”.

A eleição para governador ocorrerá em São Paulo no dia 4 de outubro de 2026. Ao final da noite debatida pelos candidatos ficou evidente que ambos estavam atentos às repercussões nacionais nas campanhas.