Para aqueles que aspiram a integrar as missões lunares dos Estados Unidos, um investimento financeiro será necessário. O administrador da NASA, Jared Isaacman, revelou que a agência só aceitará colaborações internacionais que ofereçam benefícios diretos ao país, com a aprovação da Casa Branca. O único critério de seleção é a disputa pelo polo sul lunar.
O recurso em questão é valioso e limitado.
Nas profundezas das crateras do polo sul, onde a luz solar nunca chega, o gelo acumulado pode ser extraído para produzir água potável e combustível para foguetes, fundamentais para o estabelecimento de uma base permanente e para futuras explorações rumo a Marte.
Bandeiras não são mais bem-vindas
Isaacman apresentou essa nova diretriz durante um evento com líderes militares e representantes do setor de defesa nas proximidades de Washington. Ele enfatizou que “a orientação veio diretamente do presidente dos Estados Unidos”.
“Estamos comprometidos apenas com acordos vantajosos, algo que nem sempre foi nossa prática”, acrescentou o administrador, ao declarar o fim da era de cooperação irrestrita.
Ele criticou o passado da NASA, quando buscava agradar a todos os parceiros, exibindo suas bandeiras em cada missão.
A Estação Espacial Internacional foi concebida nesse modelo colaborativo e atualmente conta com a participação de Estados Unidos, Rússia, Japão, Canadá e onze nações europeias – totalizando quinze governos. Mais de cinquenta países assinaram os Acordos de Artemis, uma série de normas para exploração lunar sob liderança americana, mas agora descobrem que a assinatura não assegura participação em missões.
No novo cenário, as vagas estarão à venda.
O gelo como troféu
Para Isaacman, a chamada “corrida espacial do século” vai além de uma simples disputa ideológica; envolve interesses concretos e significativos.
O foco declarado pelo ex-presidente Donald Trump é o polo sul lunar, região que Isaacman descreveu como “um lugar com diversas estradas e estacionamentos”.
No mapa apresentado por ele, crateras iluminadas seriam fontes de geração de energia enquanto as escuras abrigariam gelo. A Lua serve como um campo de testes para tecnologias destinadas a Marte, pois a produção local de água e combustível elimina a necessidade de reabastecimento vindo da Terra.
A urgência é respaldada por motivos reais.
A China planeja aterrissar seus próprios astronautas na Lua até 2030, dois anos após o prazo americano estipulado para 2028. Assim, o programa Artemis foi acelerado para alinhar-se ao cronograma estabelecido por Trump.
A insistência de Isaacman sobre essa questão gera mais desconforto do que o próprio fato. Ele repete constantemente: “Se não agirmos rapidamente, a China nos superará”, reforçando que a NASA não pode priorizar “segurança e burocracia” diante dos novos prazos.
Menos ciência e mais militarização
Como parte das mudanças implementadas pela nova administração, o projeto Gateway – uma estação que orbitária ao redor da Lua – foi cancelado em favor da criação de uma base permanente na superfície lunar prevista para 2028.
Cerca de US$ 5 bilhões (aproximadamente R$ 27 bilhões) já foram investidos neste programa em um equipamento que “nunca saiu da órbita terrestre”, conforme afirmou Isaacman.
Dentre os prejuízos citados por ele está a diminuição no número de crianças se vestindo como astronautas no Halloween. Esse descontentamento acontece paralelamente à nova proposta orçamentária que Trump tenta impor à NASA, afetando áreas como ciências terrestres e programas voltados para diversidade e inclusão.
Isaacman defende essas mudanças com fervor típico de um indicado político.
O bilionário do setor financeiro já financiou pessoalmente missões da SpaceX, empresa liderada por Elon Musk. Sua nomeação como administrador ocorreu apenas na segunda tentativa após dúvidas da Casa Branca sobre sua lealdade ao presidente surgirem durante o processo seletivo.
A prioridade está em tudo que favorece a corrida espacial. A Academia Espacial criada durante sua gestão tem como objetivo fortalecer as fileiras da Força Espacial dos Estados Unidos, ramo militar inaugurado no primeiro mandato de Trump.
Nessa lógica estratégica, a supremacia americana fora da Terra será sustentada por militares ao invés de cientistas.
Enquanto Washington exige pagamento, Pequim faz convites
A cobrança financeira abre espaço para concorrentes. China e Rússia estão coordenando um projeto aberto denominado Estação Internacional de Pesquisa Lunar, atraindo adesões de países da Ásia, África e América Latina — uma abordagem diametralmente oposta à política adotada por Isaacman.
Nas próximas semanas, a NASA decidirá quais acordos com agências parceiras permanecerão após essa seleção rigorosa.
O gelo do polo sul lunar convertível em água potável e combustível é o prêmio que justifica a urgência das ações empreendidas pela NASA e os custos impostos aos colaboradores internacionais.
