Na noite de terça-feira, 20 de outubro de 2026, milhares de cidadãos tomaram as ruas em Lisboa, no Porto e em diversas outras cidades de Portugal. O movimento ocorreu poucas horas após a polícia desmantelar acampamentos de manifestantes e efetuar a prisão de 55 indivíduos durante ações coordenadas. Os protestos têm como tema central a demanda por habitação acessível, em meio a uma crise que torna cada vez mais difícil a compra ou locação de imóveis para a maioria da população portuguesa.
A operação policial teve início pouco antes das 6h em Lisboa e no Porto, motivada pela notificação sobre a irregularidade das tendas montadas. No centro de Lisboa, na praça do Rossio, ativistas já ocupavam o espaço desde sábado, 17, com aproximadamente 200 barracas. As autoridades conseguiram apreender um total de 228 estruturas de acampamento. No Porto, os manifestantes decidiram desmontar suas barracas na praça D. João I, onde estavam há cerca de dez dias, diante da ameaça de uma ação policial.
Durante a operação em Lisboa, os policiais removeram os manifestantes que formaram uma corrente humana para resistir. Conflitos ocorreram logo após essa retirada, conforme mostram as imagens veiculadas por emissoras locais. Carla Valadao, porta-voz do acampamento na capital, descreveu a ação policial como “extremamente agressiva”. Por outro lado, o superintendente da Polícia de Segurança Pública, Sérgio Soares, justificou a operação como um despejo “tranquilo, proporcional e adequado, sem uso excessivo da força”.
Os 55 detidos foram liberados e deverão comparecer à Justiça em Lisboa na quarta-feira, dia 21. Na praça do Rossio, os manifestantes decidiram votar pela remontagem do acampamento na mesma data.
Os organizadores afirmaram que mais de mil pessoas se reuniram em cada um dos principais pontos dos protestos; a polícia não divulgou números oficiais sobre a participação. Débora Miranda, uma consultora de comunicação de 41 anos, destacou sua presença nas manifestações representando as gerações afetadas pelos altos custos da moradia. “Se as pessoas não se sentem em casa, em todos os sentidos, não conseguem prosseguir com suas vidas… chega”, declarou ela.
Desde 2017, os preços dos imóveis em Portugal mais que dobraram e os aluguéis dos novos contratos quase duplicaram no mesmo intervalo. Em cidades como Lisboa e Porto, os habitantes também se mobilizam contra o turismo excessivo e a chegada dos nômades digitais. Os manifestantes exigem a revogação de um projeto de lei que facilitaria despejos e eliminaria limites para aluguéis em novos contratos; essa proposta já foi aprovada na primeira leitura no parlamento. O governo de centro-direita é apontado como responsável por não enfrentar adequadamente essa crise habitacional.
A pressão por habitação afeta uma geração inteira no sul da Europa. Na Espanha, por exemplo, dados do Instituto Nacional de Estatística indicam que em 2025 cerca de 67,1% das pessoas entre 18 e 34 anos residiam com pelo menos um dos pais; além disso, a idade média para deixar o lar era de 30,2 anos — bem acima da média da União Europeia que é de 26,3 anos.
Recentemente na Espanha, o caso do despejo da idosa Maricarmen Abascal, falecida em 7 de outubro aos 87 anos, gerou uma onda de protestos que duram quase quatro semanas em Madrid e outras localidades. Um acampamento permanece montado até hoje como parte dessa mobilização social intensa que culminou na convocação antecipada das eleições gerais para o dia 29 de novembro. Na França também há manifestações; estudantes protestam desde setembro devido à falta de professores e salas superlotadas. Em 2025, cerca de 25,5% dos jovens entre 15 e 29 anos estavam sob risco de pobreza ou exclusão social naquele país europeu.
