Coluna de Miguel do Rosário
Há notícias que valem mais pelo que anunciam do que pelo fato imediato que registram. A criação do Fórum das Juventudes Progressistas, reunindo jovens de diferentes partidos políticos, é uma dessas.
Não se trata de um gesto protocolar, nem de uma fotografia de ocasião. Trata-se do sinal concreto de que o campo democrático-popular começou a entrar numa nova etapa de reorganização política, com mais consciência estratégica, mais capilaridade e, sobretudo, mais disposição de enfrentar a extrema direita de maneira unitária.
A carta lançada pelo Fórum é interessante justamente porque não cai na superficialidade tão comum do debate público brasileiro. Os jovens partem de uma leitura estrutural da crise, associando desigualdade, exploração, imperialismo, conflitos internacionais e emergência climática.
Isso importa muito. Significa que há, entre essas novas gerações do campo progressista, uma compreensão mais madura de que a extrema direita não surgiu do nada, nem é apenas um fenômeno de redes sociais, marketing agressivo ou manipulação moralista.
A extrema direita cresce no terreno fértil produzido por décadas de neoliberalismo, desindustrialização, precarização do trabalho, financeirização da economia e corrosão da vida social. Quando o Estado é enfraquecido, quando o horizonte de futuro desaparece e quando a política perde conexão com as maiorias, o ressentimento vira matéria-prima para aventuras autoritárias.
É por isso que o Fórum acerta ao combinar democracia com soberania, justiça social, desenvolvimento e formação política. Não existe defesa real da democracia sem projeto nacional.
Essa talvez seja a principal diferença entre uma reação meramente defensiva e uma resposta historicamente eficaz. Defender as instituições é indispensável, e o papel do Supremo Tribunal Federal, por exemplo, deve ser reconhecido sem hesitação na contenção de impulsos golpistas, mas a estabilidade democrática só se consolida quando o povo percebe que a política pode melhorar concretamente sua vida.
A juventude progressista parece ter entendido esse ponto com clareza. Ao falar em renovar a política, tensionar estruturas excludentes e reconstruir pontes entre as lutas sociais e a institucionalidade democrática, o Fórum toca numa ferida real do sistema político brasileiro.
Durante muito tempo, parte da política institucional perdeu linguagem, ritmo e sensibilidade para dialogar com as novas formas de mobilização social. A direita radical ocupou esse vazio com simplificações brutais, guerra cultural e mentira industrial em escala digital.
A resposta a isso não virá com imitação malfeita da linguagem do adversário. Virá com organização, formação, presença territorial, inteligência política e uma agenda material que devolva sentido à palavra futuro.
A grande mídia, como de costume, tende a olhar para iniciativas como essa com lentes estreitas. Quando não ignora, reduz a articulação a um rearranjo partidário, a uma movimentação eleitoral ou a uma disputa interna da esquerda por espaço.
É a velha operação de esvaziamento. A mesma imprensa que vive cobrando renovação da política costuma silenciar quando a renovação aparece organizada, com programa, densidade ideológica e disposição real de disputa de poder.
Também há uma recusa quase sistemática em reconhecer o conteúdo anti-imperialista e soberanista presente nessas formulações. Fala-se muito em democracia de maneira abstrata, mas pouco se discute como dependência externa, submissão financeira e perda de controle sobre ativos estratégicos corroem a própria capacidade de uma nação decidir seu destino.
Nesse sentido, a ênfase do Fórum na soberania nacional é particularmente relevante. Não é um detalhe retórico.
Soberania, no Brasil, significa energia, indústria, ciência, tecnologia, integração regional e capacidade do Estado de coordenar o desenvolvimento. Significa também defender o interesse nacional diante das pressões do capital internacional e das hierarquias geopolíticas que tentam manter o Sul Global em posição subordinada.
Por isso, a iniciativa da juventude dialoga com um movimento mais amplo. Segundo análise publicada pela Fundação Perseu Abramo sobre a semana internacional, há sinais de recomposição progressista em diferentes frentes, com avanço da esquerda na França, recuo da extrema direita na Itália e protagonismo de Lula na revisão de Itaipu.
Nada disso autoriza triunfalismo. O avanço conservador ainda tem força social, presença institucional e enorme poder de comunicação.
Mas seria igualmente errado ignorar que o pêndulo começou a se mover. O neoliberalismo está gasto, a extrema direita já exibe sinais de desgaste em várias experiências internacionais, e as forças progressistas voltam a ganhar densidade quando conseguem combinar defesa democrática com proposta econômica, soberania nacional e sensibilidade social.
O caso de Itaipu é emblemático nesse cenário. Quando Lula recoloca no centro a revisão de um ativo estratégico, ele reafirma uma concepção de governo vinculada à soberania energética e ao desenvolvimento nacional.
Isso conversa diretamente com a carta das juventudes. A democracia deixa de ser apenas um valor jurídico e passa a ser uma prática material de reconstrução do país.
Claro que a unidade recém-anunciada terá desafios. Os partidos que compõem o Fórum têm diferenças programáticas, tradições distintas e táticas eleitorais muitas vezes divergentes.
Mas a política madura não exige uniformidade total. Exige capacidade de convergência em torno do essencial.
E o essencial, hoje, está bastante nítido. É defender a democracia contra a extrema direita, reconstruir a conexão entre política e povo, enfrentar a crise social produzida pelo neoliberalismo, fortalecer o Estado, proteger a soberania nacional e abrir espaço para uma nova geração de quadros comprometidos com um Brasil justo, sustentável e independente.
A criação do Fórum das Juventudes Progressistas deve ser lida exatamente assim. Não como nota de rodapé da conjuntura, mas como sintoma promissor de uma reorganização mais profunda.
Se tiver inteligência, persistência e enraizamento popular, essa juventude pode cumprir um papel decisivo nos próximos anos. Não apenas o de resistir ao atraso, mas o de ajudar a construir uma nova maioria democrática para o Brasil.
Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Afonso Santos
