Lula propõe Mercosul como solução para a crescente guerra comercial mundial

Nesta terça-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou a importância de fortalecer o Mercosul como um pilar fundamental da estratégia econômica e geopolítica na América do Sul. Durante sua participação na 68ª Cúpula de Chefes de Estado do bloco, realizada em Assunção, Paraguai, Lula enfatizou que, diante do crescimento do protecionismo, das tensões entre potências globais e da fragmentação econômica mundial, o Mercosul se transformou em uma “necessidade estratégica”, indo além de um simples acordo comercial.

Em seu discurso, o presidente ressaltou que o panorama internacional está passando por mudanças significativas. Ele apontou que as rivalidades geopolíticas, os conflitos armados, as crises energéticas e o retorno de práticas protecionistas têm contribuído para a instabilidade global, tornando essencial uma maior coordenação entre as nações sul-americanas. Para ele, “na atual conjuntura, o Mercosul é uma necessidade estratégica” e defendeu uma integração que promova a autonomia econômica da região.

Lula apresentou dados que evidenciam a evolução do bloco. O comércio interno do Mercosul cresceu de US$ 4,5 bilhões em 1991 para estimativas superiores a US$ 50 bilhões em 2025. No ano passado, o intercâmbio comercial com o resto do mundo atingiu cerca de US$ 760 bilhões, enquanto as exportações brasileiras para os países do Mercosul alcançaram aproximadamente US$ 26 bilhões em 2025.

<pO presidente também propôs uma agenda voltada para a expansão internacional. Com a implementação do acordo entre Mercosul e União Europeia já em vigor, Lula sugeriu que o bloco acelere as negociações com países como Canadá, Índia, Vietnã, Japão e futuramente com a China, visando ampliar os mercados para produtos sul-americanos e reduzir a dependência de poucos parceiros comerciais.

No entanto, seu discurso não se limitou apenas ao comércio exterior. Lula defendeu uma integração pautada em infraestrutura, inovação tecnológica, segurança energética e digitalização. Entre suas propostas está o lançamento do FOCEM II, uma nova fase do Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul. Esta iniciativa contará com um aumento da contribuição brasileira para US$ 100 milhões anuais durante dez anos, recursos esses destinados ao financiamento de obras em infraestrutura, saneamento básico e desenvolvimento regional.

No campo tecnológico, o presidente reiterou a necessidade de criar uma infraestrutura regional de pagamentos inspirada no sistema Pix. Ele argumentou que essa plataforma pode servir como um alicerce para integrar financeiramente os países do Mercosul, permitindo um maior uso das moedas locais e diminuindo custos nas transações internacionais. A proposta visa aumentar a resiliência da região frente a choques externos e está alinhada ao objetivo do bloco de fortalecer sua autonomia financeira ao reduzir a dependência do dólar nas transações comerciais.

Lula também abordou a importância de construir cadeias produtivas regionais em setores considerados estratégicos como minerais críticos, hidrogênio verde, combustíveis sustentáveis e inteligência artificial. Para ele, essas áreas não são apenas oportunidades econômicas; elas representam temas cruciais relacionados à soberania nacional em um cenário global marcado pela competição tecnológica entre Estados Unidos e China.

A questão da segurança regional foi outro ponto destacado pelo presidente. Ele defendeu uma maior colaboração entre os países do Mercosul para combater o crime organizado transnacional e ampliar a integração policial e financeira no enfrentamento ao tráfico internacional de drogas e armas. Além disso, propôs um pacto regional voltado ao combate à violência contra mulheres e à criação de mecanismos conjuntos para resposta a desastres climáticos.

Ao concluir sua fala, Lula reafirmou que a integração sul-americana deve transcender disputas ideológicas. Ele afirmou que nenhum país da região conseguirá aumentar sua influência internacional por meio de alinhamentos automáticos com potências externas. A estratégia proposta é diversificar parcerias internacionais, fortalecer diálogos regionais e aumentar a capacidade de atuação conjunta frente às transformações na economia global.