A situação no Estreito de Ormuz revelou uma alteração significativa na dinâmica do poder global: enquanto os Estados Unidos enfrentam mais um conflito no Oriente Médio, a China se destaca como a principal ganhadora em termos econômicos e geopolíticos dessa crise.
Conforme análise publicada pelo New York Times, Pequim navegou pelas dificuldades com menos prejuízos em comparação a outras nações asiáticas, devido a três aspectos fundamentais: vastas reservas estratégicas de petróleo, um avanço acelerado nas energias renováveis e uma política industrial que transforma crises energéticas em oportunidades comerciais.
O Estreito de Ormuz é uma das rotas mais críticas do mundo, sendo responsável por cerca de 20% do petróleo e gás comercializados globalmente. A interrupção nesse fluxo impactou cadeias produtivas de energia, fertilizantes, alimentos e transporte, afetando especialmente países que dependem de importações.
<pNo entanto, a China chegou à crise em uma posição mais vantajosa. Relatórios mencionados pelo Guardian indicam que o país possuía petróleo suficiente para garantir mais de 100 dias de importações e havia instalado 315 GW de nova capacidade solar no ano anterior. Essa combinação reduziu sua vulnerabilidade imediata ao choque e reforçou a narrativa de que a energia limpa é também uma questão de segurança nacional.
O benefício não se limitou apenas à defesa. A crise fomentou as exportações chinesas de painéis solares, veículos elétricos, baterias e outros equipamentos relacionados à transição energética. Enquanto concorrentes asiáticos enfrentavam o aumento dos custos, Pequim consolidou sua posição como fornecedora essencial das tecnologias que visam diminuir a dependência do petróleo.
No campo diplomático, a China aproveitou essa oportunidade para contrastar sua imagem com a dos Estados Unidos. O conflito permitiu que Pequim posicionasse Washington como um agente de instabilidade no Oriente Médio, ao mesmo tempo em que se esquivava da responsabilidade direta pela segurança regional.
Esse aspecto da estratégia chinesa é particularmente astuto. Pequim tira proveito da ordem internacional ainda vigiada pelos EUA, mas utiliza politicamente cada crise provocada por Washington. Não é necessário substituir os norte-americanos no Oriente Médio para aumentar sua influência; basta evidenciar que o modelo americano gera riscos crescentes para energia, comércio e estabilidade global.
A crise em Ormuz também ilustra o raciocínio estratégico por trás da política industrial chinesa. Estoques, energias renováveis, veículos elétricos, baterias, portos e acordos energéticos não são componentes isolados; eles compõem uma estrutura de resiliência nacional projetada para enfrentar choques geopolíticos com menor vulnerabilidade.
Enquanto isso, países que dependem de combustíveis importados e têm cadeias logísticas longas ficam mais expostos a esses riscos. A crise demonstrou que a soberania energética não se limita apenas à quantidade de poços petrolíferos disponíveis, mas também à capacidade de diversificar fontes, controlar tecnologias e planejar a longo prazo.
No final das contas, Ormuz reforçou uma lição desconfortável para o Ocidente: a China não precisa vencer guerras para expandir seu poder. Muitas vezes, o suficiente é sobreviver melhor aos conflitos alheios.
