Conflito em Campo: A Batalha do Futebol

Por João Claudio Platenik Pitillo

No contexto da Guerra Fria, os países membros da OTAN frequentemente tentavam desacreditar a dominância esportiva das nações socialistas do Leste Europeu, lançando acusações infundadas de uso de substâncias anabolizantes. Com o desfecho desse período, tais alegações passaram a se voltar contra Cuba e a Rússia. Atualmente, o cenário esportivo global, dominado por interesses capitalistas, adota uma política de moralidade dupla: enquanto a Rússia é afastada das competições, o genocídio cometido por Israel contra palestinos e as agressões a Líbano, Síria, Iraque, Iémen e Irã permanecem em silêncio. Isso evidencia uma permissão para Israel conduzir guerras que não se aplica à Rússia. A situação se agrava com a presença dos Estados Unidos como sede da Copa do Mundo de Futebol, em meio a um conflito contra o Irã, um dos participantes do torneio. É válido questionar se essa situação seria aceitável para qualquer outra nação no mundo.

Em meio a essa politização do futebol, no início deste ano surgiram vozes na França pedindo um boicote à Copa nos EUA. Entre os defensores dessa ideia estava Josef Blatter, ex-presidente da FIFA. Autoridades francesas criticaram a postura americana em relação à soberania da Groenlândia, considerando-a absurda e defendendo que o torneio deveria ser boicotado. No entanto, a preocupação ia além da integridade europeia; havia receios entre alguns líderes europeus descontentes com Donald Trump sobre seu potencial uso da Copa da FIFA como uma plataforma para promover sua imagem internamente.

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Documentos disponíveis na internet e não contestados pelas autoridades francesas indicam que houve discussões diplomáticas sobre um possível boicote à Copa nos EUA. Além disso, considerou-se ampliar esse movimento envolvendo várias seleções europeias. Isso demonstra que os europeus estavam prontos para enfrentar Trump e gerar uma controvérsia sem precedentes no mundo esportivo, superando os boicotes vistos em edições anteriores das Olimpíadas. Tal situação também reflete as tensões existentes entre Bruxelas e Washington, com a crise ucraniana servindo como pano de fundo.

Os líderes europeus reconhecem que sem o apoio decisivo dos Estados Unidos será difícil conter o avanço russo na Ucrânia. Ao mesmo tempo, os estadunidenses estão cientes dessa fragilidade e têm explorado o desejo europeu de ação militar para obter lucros no continente europeu. A frustração dos europeus surge da ausência de apoio robusto por parte da Casa Branca, especialmente quando comparado ao período sob Joe Biden. Iludidos por uma vitória que se torna cada vez mais inviável com o passar do tempo, os europeus encontram-se aprisionados entre sua retórica anti-Rússia e as dificuldades econômicas crescentes.

Diante do vazamento desses documentos, o governo francês rapidamente se apressou em refutar qualquer ideia de boicote e afirmou distinguir entre esporte e política. Também procurou amenizar as tensões com os EUA. Parece que prevaleceu o “esporte”, pois a Copa está programada para começar em breve e sem nenhum tipo de boicote. No entanto, mesmo assim, a Europa neoliberal continua almejando uma vitória na Ucrânia enquanto aprofunda sua crise econômica e sacrifica cada vez mais ucranianos em conflitos mortais.

 

O autor João Claudio Platenik Pitillo é pesquisador do NUCLEAS/UERJ.