Tensões renovadas entre EUA e Irã interrompem novamente o tráfego no Estreito de Ormuz, elevando o risco de desabastecimento global
O alívio temporário que o mercado de petróleo experimentou foi breve. Após um período em que o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz havia sido restabelecido, a ruptura do cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irã novamente bloqueou essa passagem crucial, pela qual transita cerca de 20% do petróleo consumido mundialmente. Além disso, desta vez, o mundo enfrenta essa crise sem as reservas de segurança que ajudaram a mitigar um colapso econômico nos primeiros meses do conflito.
De acordo com informações obtidas por operadores do setor, a situação atual é muito mais preocupante em comparação ao início da guerra. No começo do conflito entre Washington e Teerã, havia estoques e reservas estratégicas suficientes para lidar com os impactos. Atualmente, esses recursos estão praticamente esgotados. Um operador expressou a gravidade da situação ao afirmar: “Já não temos mais reservas. Tudo se foi”.
Reservas comprometidas após meses de conflito
Para captar a seriedade do momento atual, é necessário olhar para o passado recente. Durante os quatro meses anteriores ao acordo entre os EUA e Irã no mês passado, quando o Estreito de Ormuz permaneceu fechado, diversos governos ocidentais e asiáticos utilizaram quase todas as medidas possíveis para estabilizar os preços.
Por exemplo, potências ocidentais liberaram quantidades recordes das reservas estratégicas de petróleo, criadas para situações emergenciais como essa. Paralelamente, a China cortou suas importações pela metade e forçou suas estatais a utilizarem o petróleo já estocado. Até mesmo a Casa Branca indicou que poderia intervir diretamente nos mercados futuros caso os preços disparassem incontrolavelmente.
Como resultado dessa mobilização coletiva, o preço do petróleo Brent atingiu US$ 126 por barril em abril — um valor elevado, mas ainda longe do recorde histórico — mesmo com alertas da Agência Internacional de Energia (AIE) sobre a pior interrupção de fornecimento já registrada até aquele momento.
Agora, esse colchão protetor simplesmente não existe mais. A AIE informou na última sexta-feira que quase três quartos dos 400 milhões de barris previstos para reserva de emergência foram utilizados pelos países membros desde março. Isso significa que restam apenas algumas semanas até que esse estoque se esgote completamente.
Alta dos preços reflete nervosismo no mercado
As variações nos preços do petróleo nas últimas semanas contam parte dessa narrativa por si só. Com o anúncio do cessar-fogo, os valores caíram rapidamente — saindo de aproximadamente US$ 100 por barril para pouco mais de US$ 70 — proporcionando um alívio momentâneo que não se sustentou.
Na terça-feira passada, contudo, o preço do Brent voltou a subir acentuadamente, superando os US$ 87 — o maior valor em mais de um mês. Já na quarta-feira seguinte, estava em torno de US$ 84,40, acumulando uma alta de 11% somente nesta semana. Esse tipo de flutuação intensa geralmente indica o nervosismo predominante entre investidores significativos.
Amrita Sen, diretora da Energy Aspects, esclarece que antes do início da guerra havia cerca de 400 milhões de barris em estoques excedentes no mercado global — sem contar as reservas estratégicas controladas pelos governos. Atualmente, segundo ela, esse colchão desapareceu quase completamente: “Não temos praticamente nada agora”. Ela resume a situação afirmando que “a complacência do mercado em relação ao fluxo pelo Ormuz está sendo severamente testada”.
O consumidor é quem mais sente o impacto
Enquanto especialistas debatem projeções sobre barris e estoques, quem realmente sente as consequências rapidamente é o motorista comum nos postos de gasolina. Desde o início da guerra, os preços da gasolina e diesel têm aumentado mais rapidamente — e diminuído muito mais lentamente — em comparação com o próprio petróleo bruto. Essa discrepância afeta especialmente aqueles com menos margem orçamentária para suportar aumentos repentinos.
Além disso, há uma pressão adicional sobre o mercado de combustíveis refinados. A Rússia, segunda maior exportadora mundial de diesel, também tem enfrentado interrupções na produção após uma série de ataques bem-sucedidos realizados por drones ucranianos contra suas instalações de refino. Diante desse cenário desafiador, a AIE alertou na última sexta-feira sobre uma possível crise no abastecimento desses combustíveis enquanto contratos futuros para diesel no mercado atacadista europeu subiram 14% apenas nesta semana.
Ademais, há um efeito colateral menos discutido neste contexto: mesmo países ocidentais que evitaram as importações russas devido à guerra na Ucrânia agora precisam competir pelo diesel com nações como Turquia e Brasil — ambas continuando a comprar combustível russo e agora também buscando alternativas viáveis. Isso evidencia como sanções energéticas decididas em esferas políticas distantes podem alterar significativamente as dinâmicas comerciais globais — muitas vezes com consequências imprevistas.
Por outro lado, embora houvesse preocupações generalizadas sobre companhias aéreas enfrentando escassez de combustível — dado que países como Kuwait são fornecedores cruciais — até agora essa situação não se concretizou. As refinarias conseguiram otimizar sua produção enquanto as próprias companhias aéreas reduziram voos considerados menos lucrativos. Contudo, espera-se que os estoques diminuam durante o pico da demanda no verão e reabastecer antes das férias de inverno será uma tarefa complexa.
A AIE relatou uma leve alta nos estoques globais em junho; porém esse aumento foi ínfimo comparado às quedas acumuladas nos três meses anteriores — um fato que ressalta como a margem disponível no sistema está muito reduzida.
Conflitos no Golfo intensificam tensões geopolíticas
A queda dos preços logo após o cessar-fogo teve outra justificativa imediata relacionada ao excesso temporário na oferta devido aos países do Golfo apressarem-se em liberar tanques lotados ao escoar milhões de barris pelo EstreitodeOrmuz para retomar sua produção.
A estatal Adnoc dos Emirados Árabes Unidos chegou a leiloar84milhõesdebarrispelopelo CanaldeOrmuz enquanto tentava localizar petroleiros gigantes aguardando nas proximidades receosos quanto à travessia pelo golfo.
No entanto,a aparente normalização foi abruptamente interrompida por eventos violentos.O braço marítimo da Adnoc confirmouque dois superpetroleiros—capazes deretransportarequase dois milhões debarrisem cada—foramatacados pelo Irã na manhãde terça-feira enquanto cruzavam estreito.De acordo com informações confirmadas,morrem pelo menos um marinheiro nesse incidente,o quiexplorandoo risco humano por trásde cada estatística mercadológica.
Alguns fornecedoresdoGolfo atéconseguiram redirecionarparte derespectivas exportações.A Arábia Saudita,aumentouseus embarques pelomar Vermelho paracerca demilhõesdebarrisdia—umvolume inferior aos sete milhõesenviados anteriormente atravésdo Estreito – já outros paísescomo Iraqueekuwaitpermanecem praticamente isolados sem rotasalternativas viáveis.
Joel Hancock analistano Natixis Bank resumiu bema sitaçãoatualdosnegociadores:”Em última análise,o mercadodeveria estar precificando um fluxo otimista cuja perspectivaagoraestá claramente fora dquestão….nãoantesqueocorranovass rodadasdenegociações”
Mar Vermelho pode complicar ainda maiso panorama
Por fim,a tensão se estendealémdoregiondoGolfoPérsico.Operadoresacompanhamcom atenção assituação nomar VermelhoapósataquesdosrebeldeshouthisdoIêmencontraaArábiaSaudita,sendo um delesno aeroporto internacionaldeSana’a.
