O iFood anunciou nesta quarta-feira (16) que vai investir R$ 24 bilhões no Brasil entre abril de 2026 e março de 2027. O valor supera em 41% os R$ 17 bilhões do ciclo anterior e concentra a ofensiva da empresa em restaurantes, novas categorias e inteligência artificial.
Para o consumidor, o plano tende a aparecer em recomendações mais ajustadas, entregas mais rápidas e expansão de compras de mercado, farmácia, lojas e pet shops dentro do aplicativo. Para restaurantes, a aposta está em ferramentas de gestão, crédito, atendimento e fluxo de clientes também no salão.
A companhia apresentou o pacote no iFood MOVE 2026, realizado nos dias 16 e 17 de setembro no São Paulo Expo, em São Paulo. O evento foi anunciado como o maior encontro de restaurantes da América Latina e mira donos de estabelecimentos, varejo e conveniência. Mais dinheiro para tecnologia própria
O ponto mais sensível do plano está na tecnologia. O iFood afirma que os investimentos em inovação e inteligência artificial passarão de R$ 2 bilhões no período, com desenvolvimento de agentes de IA e do Large Commerce Model, o grande modelo de comércio criado pela empresa em parceria com a Prosus, sua controladora.
A decisão desloca o iFood de uma posição comum entre plataformas digitais no Brasil. A empresa não quer apenas comprar modelos prontos de inteligência artificial de gigantes estrangeiras, mas treinar uma camada própria para comércio, entrega e consumo recorrente.
O modelo usa sinais da própria operação, como buscas, cliques, compras, cancelamentos e avaliações, para interpretar intenção de compra. A promessa é reduzir custo de processamento e aumentar a precisão de recomendações, notificações e decisões operacionais.
Em março, o iFood informou que o LCM já apoiava 12 milhões de pedidos em fevereiro, respondia por 90% das interações de inteligência artificial generativa da companhia e operava, em média, a custo cerca de dez vezes menor do que o uso exclusivo de modelos de mercado em 40 aplicações. Esse dado dá peso ao anúncio desta quarta. A disputa não envolve só cupom e taxa de entrega, mas a infraestrutura invisível que decide o que aparece para cada usuário, qual restaurante ganha destaque e quanto custa operar milhões de pedidos por mês.
Delivery vira ecossistema
O iFood chega ao novo ciclo com escala rara no mercado brasileiro. A plataforma reúne cerca de 65 milhões de consumidores, 500 mil estabelecimentos e 600 mil entregadores parceiros, com mais de 180 milhões de pedidos mensais.
A empresa quer usar essa base para vender mais do que refeição pronta. Supermercados, farmácias, bebidas, conveniência e pet shops ampliam a presença do aplicativo no cotidiano e reduzem a dependência do horário clássico de almoço e jantar.
O iFood Hits mira refeições mais baratas e tenta transformar o delivery em hábito de dia útil. O iFood Turbo promete entregas rápidas em grandes centros e trabalha com uma lógica de logística mais apertada, na qual o tempo de preparo do restaurante precisa conversar com a chegada do entregador.
A expansão também alcança os serviços financeiros. O iFood Pago já opera conta, antecipação de recebíveis, meios de pagamento e crédito para restaurantes, uma frente que cresce porque a plataforma conhece o fluxo diário de venda dos estabelecimentos.
Concorrência aperta a margem
O plano de R$ 24 bilhões sai em meio a uma disputa mais dura no delivery brasileiro. A 99Food voltou a crescer no país, a Keeta entrou no mercado com capital da Meituan, e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica acompanha contratos, cláusulas e incentivos oferecidos a restaurantes.
No início de setembro, o Cade manteve em andamento uma investigação sobre cláusulas adotadas pela 99Food em contratos com restaurantes, a partir de representação da Keeta. O órgão negou uma medida preventiva naquele momento, mas determinou novas diligências e incluiu no radar a entrada da Keeta, a reentrada da 99Food e a atuação de iFood e Rappi. Esse é o limite factual da leitura favorável ao iFood. A empresa anuncia tecnologia nacional e investimento bilionário, mas opera em um setor concentrado, judicializado e dependente de uma relação delicada com restaurantes e entregadores.
A vantagem do iFood está na escala. O risco está no mesmo lugar. Quanto maior a plataforma, maior a pressão para que a inovação reduza custo sem empurrar a conta para quem cozinha, entrega ou compra.
Restaurante no aplicativo e no salão
A nova etapa tenta aproximar o aplicativo do espaço físico dos restaurantes. A companhia desenvolve ferramentas para reserva de mesas, descontos, programas de retorno e gestão integrada entre pedidos online e atendimento presencial.
A lógica é ocupar horários de menor movimento e reduzir mesa vazia. Para pequenos e médios estabelecimentos, isso pode significar mais venda com a mesma estrutura, desde que taxas, crédito e dependência da plataforma não corroam a margem.
Diego Barreto, presidente do iFood, apresentou o aumento do investimento como compromisso de longo prazo com o país. A fala combina com a mensagem econômica da empresa, que se coloca como uma plataforma nascida no Brasil, capaz de produzir tecnologia própria em um setor dominado por grupos globais.
O próximo teste será menos publicitário e mais concreto. O investimento anunciado precisa aparecer em ferramenta que venda mais para restaurante, entregue melhor para consumidor e preserve renda para entregador, sem transformar inovação em mais uma camada de dependência dentro do aplicativo.
