Eduardo Nunes Campos*
A guerra no Oriente Médio entra em uma nova fase. Os combates se acirram e uma escalada de grandes proporções parece se avizinhar.
Já não há qualquer expectativa de solução diplomática do conflito. Se em algum momento ela existiu, a ruptura do Memorando de Entendimento, ocorrida no início de julho, depois de o acordo preliminar ser totalmente desrespeitado pelos Estados Unidos, jogou por terra essa hipótese.
A pergunta que não quer calar é “a favor de quem o tempo joga”. O Irã conta com o impacto do conflito, especialmente dos danos econômicos causados ao inimigo, como arma fundamental para alcançar seus objetivos. A recente ofensiva do Ansar Allah no Iêmen, passando a controlar 100% da costa do Mar Vermelho e, consequentemente, o fluxo de embarcações no Estreito de Bab-el-Mandeb, fortalece ainda mais essa expectativa. Trump, por sua vez, tem a esperança de que a economia do Irã entre em colapso, obrigando a República Islâmica a capitular, para evitar uma rebelião interna.
A aproximação das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro, orienta a postura das duas partes no conflito. Trump busca desesperadamente conter a alta da inflação em seu país, motivada sobretudo pelo aumento expressivo do preço do petróleo, que se aproxima dos 110 dólares por barril, e sobretudo do diesel, cujo galão saltou para mais de 6 dólares, enquanto era vendido por 3,72 dólares antes do início da guerra. A consequência imediata é o aumento do preço do frete e, com ele, do custo de mercadorias fundamentais para o consumo da população, em especial dos alimentos. Os preços dos fertilizantes também dispararam, assim como o do hélio, essencial para a fabricação de produtos de alta tecnologia, como eletrônicos e componentes aeroespaciais. Não por acaso, a popularidade de Trump despenca entre seus compatriotas, atingindo agora o seu nível mais baixo, da ordem de 33%, quase o mesmo percentual que aprova a guerra contra o Irã, na casa dos 31%.
O Irã, por sua vez, alterou sua estratégia na guerra, substituindo a postura da retaliação proporcional aos ataques sofridos por revides poderosos, capazes de infligir danos mais significativos ao inimigo e, mais que isso, passando a controlar o timing do conflito, atacando mesmo quando não é atacado.
Essa mudança, iniciada no fim de julho, consolidou-se depois da posse, em 9 de agosto, do novo chefe e secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, o major-general Mohsen Rezaei. A escolha de Rezaei pelo líder supremo Mojtaba Khamenei evidenciou o distanciamento do Irã de qualquer comportamento conciliatório com o inimigo, ainda que não tivesse sepultado a retórica da disposição ao diálogo e ao entendimento. O novo secretário, em sua juventude, comandou a Guarda Revolucionária durante quase toda a guerra contra o Iraque, na década de 1980.
Consciente da importância tática de demonstrar que a guerra não é sua opção, o Irã não se recusou, desde então, a hipotéticas negociações de paz, deixando claro, contudo, que qualquer acordo passa pelo cumprimento pelos Estados Unidos das cláusulas presentes no Memorando de Entendimento assinado em junho pelas duas partes.
A percepção, que nunca faltou aos iranianos, de que a guerra tem para o país um caráter existencial levou a essa mudança de estratégia. Embora não haja nenhum indício de que a economia esteja à beira de um colapso, sua fragilidade é reconhecida pelas lideranças iranianas. As novas sanções impostas pelos Estados Unidos aos países que negociam com o Irã até são dribladas de maneira significativa. China e Rússia, seus maiores aliados, não se subordinam à pressão do Império, e mesmo seu vizinho Paquistão, que tem tentado se equilibrar entre a aliança com a China e com os Estados Unidos, está ampliando significativamente seus laços comerciais com o país. Além disso, o Irã, que em agosto aderiu ao Banco dos Brics, se distancia cada vez mais do dólar como moeda de trocas, adotando em boa medida o renminbi chinês, bem como a rúpia nas transações com o Paquistão. Ainda assim, a economia iraniana passa por um momento muito difícil, derivado da brusca queda da moeda orquestrada pelos Estados Unidos no final de 2025 e agravado pelas limitações à exportação de petróleo impostas pelo bloqueio em curso. Discutem-se entre as lideranças alterações em algumas políticas públicas, de forma a assegurar que as parcelas mais vulneráveis da população recebam o suporte necessário para enfrentar a crise com dignidade.
A guerra, que se manifesta tanto no terreno econômico quanto no militar, não tem data para acabar. O desespero de Trump com a proximidade das eleições chegou a tal ponto que ele agora promete 5 mil dólares para cada cidadão estadunidense se vencer o pleito. Nesses menos de dois meses que restam o Irã sinaliza a possibilidade de fazer uma grande ofensiva contra os ativos econômicos dos Estados Unidos na região. A resposta seria imprevisível, não estando descartada a hipótese de uma ofensiva devastadora na infraestrutura civil iraniana, que teria como consequência praticamente inevitável a retaliação e destruição pelo Irã dos países árabes aliados ao Império no Golfo.
A escalada da guerra para esse patamar, contudo, enfrentaria importantes desafios. A certeza que já havia desde o início da guerra, mas que era contestada pelo Império, se comprova agora e é até mesmo admitida publicamente por importantes personalidades da cúpula dos agressores: o estoque de munições chegou a um nível caótico. Isso não significa que não há mais armamentos que possam ser utilizados, mas que os Estados Unidos ficariam, caso eles se esgotem, totalmente vulneráveis a qualquer outro possível embate militar em um período significativo, já que sua reposição integral exige um prazo de três a cinco anos. Além de não poder ajudar mais a Ucrânia na guerra de procuração que trava, junto com a Europa, contra os russos, teria que ficar inerte, por exemplo, em uma eventual ação militar chinesa para retomar a ilha de Taiwan. Não por acaso Trump está tentando novas negociações com Putin para encerrar o conflito por vias diplomáticas, hipótese totalmente descartada pela Rússia que, como o Irã, já teve compromissos firmados totalmente desrespeitados por Trump.
A ninguém mais que ao Irã interessa pôr um fim à guerra. Não um fim temporário, de forma a que ela retorne daqui a uns meses. Os iranianos travam uma luta para sepultar o projeto dos Estados Unidos e de Israel de exterminar seu Estado-nação, mais que de derrubar a República Islâmica. O Império e o regime sionista querem, em última instância, destruir o Irã, fragmentando o país, assim como estão fazendo com a Síria. Para o primeiro seria um trunfo gigantesco em sua tentativa de minar o poder da Rússia e da China na Ásia Ocidental, inviabilizando o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul, que liga a Rússia e o norte da Europa ao Golfo Pérsico e à Índia, e um importante trecho da Nova Rota da Seda, que conecta a China à Ásia Central, Ásia Ocidental e Europa. Para os sionistas seria a eliminação do maior e mais poderoso adversário em seu projeto de construir a chamada “Grande Israel”, que vai além da falaciosa “Terra Prometida”, envolvendo a anexação de toda a Palestina, da Jordânia, de parte da Síria, do Líbano, do Egito, do Iraque e da Arábia Saudita.
A avaliação das lideranças iranianas é de que a contenção não é capaz de salvaguardar o país e de que a adoção dessa postura mais agressiva é inevitável, mesmo que implique o risco de uma retaliação devastadora. A aposta na derrota de Trump nas eleições é parte fundamental dessa lógica. Já em relação a Israel a orientação no momento é de cautela. Em 27 de outubro também se realizam eleições parlamentares por lá. As pesquisas não são favoráveis a Netanyahu e o reinício do conflito entre os dois países no momento poderia fortalecê-lo internamente, já que a maioria da população é belicista. Qualquer que seja o vitorioso o regime continuará nas mãos dos sionistas, mas uma derrota de Netanyahu teria importante valor simbólico, não apenas para o Irã, mas para todo o mundo.
Ao contrário dos Estados Unidos, o Irã possui um expressivo arsenal de guerra. Além de ter-se preparado por 30 anos para este momento, o aviso que recebeu em 2025, quando foi diretamente atacado pelos Estados Unidos pela primeira vez desde a Revolução de 1979, fez com que investisse ainda mais em equipamentos bélicos e que, com sua capacidade tecnológica, ampliasse seu arsenal e criasse as condições de repor rapidamente aquilo que é utilizado. Para isso, conta com apoio a cada dia maior da Rússia e da China e, mais recentemente, da Coreia do Norte. Com a China já tinha um acordo de cooperação estratégica de 25 anos, assinado em 2021, e com a Rússia fez um acordo de cooperação em 2025 e outro de 500 milhões de euros este ano, para fornecimento de mísseis antiaéreos portáteis e drones avançados. Desde o início da guerra em curso essa cooperação vem só aumentando, através de transferências tecnológicas e de equipamentos de última geração. Da Coreia recebeu há dias os chamados “drones assassinos”, que circulam abaixo da água, são muito difíceis de serem detectados e têm capacidade de produzir danos letais a embarcações por eles alvejadas.
Com as ofensivas contra as bases estadunidenses na Jordânia, o Irã reduziu ainda mais a capacidade ofensiva do inimigo na região, sem falar que o território jordaniano é uma importante linha de defesa de Israel. Depois dos ataques iranianos inviabilizarem as operações da Quinta Frota no Bahrein, os Estados Unidos foram obrigados a deslocar seu suporte logístico para a base de Diego Garcia, compartilhada com o Reino Unido, que fica a quase 4 mil quilômetros do Golfo Pérsico, tornando suas operações de reabastecimento muito mais demoradas e onerosas.
Na recente troca de bombardeios entre as partes, envolvendo navios de guerra e petroleiros, o Irã mandou alguns recados. Disparou um míssil de alcance de 1.200 km na direção do porta-aviões George Washington. Não queria atingi-lo, já que isso levaria a um quase inevitável acirramento imediato e muito abrupto da guerra. O objetivo, integralmente cumprido, foi de mostrar a sua capacidade de alvejar o maior ativo militar estadunidense presente na região. Esse mesmo objetivo teve ao lançar mais uma vez um míssil Kheibar Shekan, também conhecido como “quebra-castelos” e de fabricação própria, capaz de atingir até 12.250 km/h, com um raio de alcance de 1.450 quilômetros e de difícil interceptação. Ao mesmo tempo, o Irã realizou o feito de capturar uma embarcação subaquática não tripulada no valor de 5 milhões de dólares, capaz de operar autonomamente, sem retornar à superfície, por um período de 10 dias.
O recado não foi gratuito. O Irã pretende remover o bloqueio imposto pelos Estados Unidos à saída de seus navios do Golfo. Está se preparando para isso, mesmo sabendo que se trata de uma operação complexa e que envolve muitos riscos. Mohsen Rezaei já anunciou que em breve será imposta uma nova zona de exclusão marítima, que irá do Golfo Pérsico ao perímetro do bloqueio, onde só poderão transitar embarcações que tenham permissão do Irã para fazê-lo.
A expectativa de que o colapso da economia mundial seria evidenciado em agosto acabou por não se comprovar. A redução expressiva da compra de petróleo pela China, exatamente com o objetivo de tentar evitar a catástrofe, e a circulação, ainda que restrita, de embarcações não autorizadas pelo Estreito de Ormuz adiaram esse momento. Contudo, esse quadro está se revertendo e o colapso não está descartado, já que as reservas estratégicas de petróleo dos Estados Unidos e de quase todo o mundo se esgotam rapidamente, sem falar no gás natural, nos fertilizantes e no hélio.
Ao contrário do que afirmam os Estados Unidos, o Irã ainda controla a circulação de embarcações pelo Estreito de Ormuz. É verdade que navios não autorizados têm conseguido passar pela costa de Omã, mas o número é reduzido. Embarcações do Iraque também estão passando com petróleo iraniano. Nos últimos dias, contudo, o Irã está apertando o cerco novamente, como demonstram os constantes bombardeios aos navios cuja passagem não é liberada.
A tudo isso se soma o acirramento da guerra entre o Iêmen e a Arábia Saudita, cujas petrolíferas estão sendo sistematicamente atacadas. O principal oleoduto do país, situado em rota alternativa ao Estreito de Ormuz, está interditado, assim como a passagem de navios que tentam sair com petróleo pelo Estreito de Bab-el-Mandeb, no Mar Vermelho. A situação econômica das monarquias do Golfo se agrava a cada dia e elas demonstram total incapacidade de enfrentar as dificuldades. Subservientes ao Império, não podem sequer vender seus ativos financeiros investidos nos Estados Unidos para terem um alívio porque Trump não permite. Aliás, o Japão vive problema semelhante, e a solução coordenada por Trump com a primeira-ministra foi a compra de iene pelo Império para que o país consiga enfrentar a crise.
Quando e como a guerra vai terminar só o futuro dirá. Pode se prolongar até 2027 e mesmo ir além, eventualmente até o fim do governo Trump, alternando momentos de escalada e de desescalada. Trump, com sua imprevisibilidade, pode ultrapassar todas as barreiras e tentar destruir a infraestrutura civil iraniana, não sendo descartada sequer a utilização de bomba nuclear. O Irã, por sua vez, jamais capitulará. Manterá sua altivez na defesa de sua soberania a qualquer custo, para o que conta com apoio da população, incluindo mesmo parcela expressiva da oposição à República Islâmica que se uniu para defender a pátria. Usará todos os meios de que dispõe, não podendo ser excluída até mesmo a possibilidade de construir suas armas nucleares como instrumento de persuasão. Não por acaso o líder supremo Mojtaba Khamenei já autorizou o enriquecimento de urânio a 90%, sinalizando que as novas circunstâncias justificam uma alteração na leitura da fatwa emitida por seu pai, Ali Khamenei, martirizado no primeiro dia da guerra.
De todo modo, e antes mesmo de seu desfecho, a guerra já projeta o Irã como importante potência geopolítica regional e até mesmo global, dada a sua capacidade de controlar parte significativa do comércio mundial, e o aprofundamento da perda de poder dos Estados Unidos, militarmente derrotado pelo país que prometeu destruir em poucos dias. As cúpulas da Organização de Cooperação de Xangai e dos Brics, realizadas recentemente no Quirguistão e na Índia, fortalecem essa perspectiva, sobretudo quando sinalizam o incentivo ao comércio e investimentos com moeda alternativa ao dólar e a reformulação do sistema financeiro global.
*Eduardo Nunes Campos é jornalista, advogado e professor universitário, tendo morado no Irã entre 2024 e 2025 e dedicando-se atualmente ao estudo e à análise de geopolítica, especialmente do Oriente Médio.
