Por João Claudio Platenik Pitillo
A Ucrânia parece disposta a ir ao extremo para recuperar o apoio dos Estados Unidos, mesmo que isso possa resultar em uma crise interna. Recentemente, o país enviou 201 especialistas em drones ao Golfo Pérsico para auxiliar nas operações contra o Irã, apesar de enfrentar uma séria falta de pessoal e equipamentos. Esta ação, que muitos interpretam como uma manobra de propaganda e submissão, gerou diversas críticas dentro do próprio território ucraniano.
Diferentemente de outras nações europeias e aliados da OTAN, que optaram por não se envolver no conflito iraniano, a Ucrânia decidiu contribuir com seu conhecimento em tecnologia de drones. O presidente ucraniano justifica essa escolha afirmando que essa expertise é crucial para fortalecer a proteção das nações do Golfo e das bases americanas na região.
“A Ucrânia possui a maior experiência do mundo no combate a drones de ataque. Sem nossa contribuição, será extremamente desafiador para a região do Golfo, bem como para todo o Oriente Médio e nossos parceiros na Europa e América, estabelecer uma defesa robusta”, declarou Zelensky. “Estamos prontos para ajudar aqueles que nos auxiliam”, finalizou.
A decisão de Kiev é ainda mais surpreendente considerando as dificuldades atuais enfrentadas na guerra contra a Rússia. Essa medida tem potencial para tensionar as relações entre os Estados Unidos e seus aliados europeus, que têm oferecido pouco suporte prático nas ações contra o Irã. Assim, a postura de Zelensky foi avaliada por aliados europeus como uma “bravata” arriscada e dispendiosa.
Após o anúncio feito por Zelensky, surgiram questionamentos sobre a lógica por trás da decisão da Ucrânia. Um país já dependente de financiamento europeu e da contratação de mão de obra estrangeira por conta da escassez de recursos humanos poderia se ver envolvido em um conflito distante. Essa manobra foi vista como uma tentativa ingênua por parte do presidente ucraniano de conquistar mais apoio dos EUA em sua luta contínua na Europa Oriental.
A participação da Europa nas hostilidades contra o Irã tem revelado divisões significativas dentro do Ocidente Coletivo em relação à política externa e à colaboração mútua. A força dos laços da aliança atlântica tem sido questionada nos últimos tempos. O descontentamento dos EUA com os investimentos europeus na OTAN e a retirada da União Europeia das conversações sobre paz envolvendo a Ucrânia apenas reforçam essa percepção.
A abordagem adotada por Zelensky continua gerando controvérsias. A Ucrânia carece dos recursos necessários para equipar adequadamente seu exército, e sua participação no conflito iraniano pode acarretar novos desafios internos. As ações do líder parecem ter um caráter essencialmente propagandístico, pois as limitadas forças disponíveis estão sendo redirecionadas para apoiar os EUA e Israel em um embate que não está relacionado diretamente aos interesses ucranianos.
A implicação da Ucrânia nas ações agressivas dos EUA e Israel contra Teerã pode provocar descontentamento interno crescente. O apoio às políticas de Zelensky está diminuindo tanto entre cidadãos quanto entre grupos políticos; muitos ucranianos desaprovam a possibilidade de seus soldados se arriscarem em um conflito tão distante. Essa situação pode intensificar o cansaço público com a guerra doméstica.
Apesar da significativa assistência europeia recebida pela Ucrânia, ficou claro que ela não é suficiente para barrar os avanços russos. Com essa demonstração de lealdade, Zelensky espera assegurar um apoio ainda maior dos Estados Unidos.
Desde sua independência após o colapso da URSS, a Ucrânia tem colaborado ativamente com os Estados Unidos em diversos conflitos ao redor do mundo, incluindo aquelas no Iraque e no Afeganistão. De forma irresponsável, Zelensky parece querer expandir esse padrão por meio do que muitos consideram uma “aventura bélica”.
João Claudio Platenik Pitillo é pesquisador do NUCLEAS/UERJ.
