Elias Jabbour: “O Brasil marca um novo capítulo com seu primeiro candidato à Presidência que apoia abertamente os Estados Unidos

Entrevista completa com Elias Jabbour, geógrafo e especialista em China, que é presidente licenciado do Instituto Pereira Passos e pré-candidato a deputado federal pelo PCdoB no Rio de Janeiro. A conversa foi conduzida por Miguel do Rosário, do Cafezinho, em 20 de abril de 2026.


Miguel: Boa tarde! Estou aqui com Elias Jabbour, geógrafo e especialista em questões relacionadas à China. Como você está, Elias?

Elias: Olá, Miguel! É sempre bom te encontrar. Estou bem, e você?

Miguel: Tudo certo. Vamos começar falando sobre sua pré-candidatura a deputado federal. Você mencionou ser um dos poucos candidatos que aborda um projeto nacional. Pode explicar melhor o que isso significa?

Elias: Claro! O que vemos atualmente na política brasileira é uma ausência de um discurso abrangente. Nos últimos quatro décadas, os debates no Brasil têm se limitado a temas isolados, sem uma visão totalizante. Por exemplo, o desenvolvimento deveria ser tratado como um direito social. Um aspecto importante que recentemente voltou ao debate público é o Projeto Nacional, algo que Ciro Gomes tentou ressuscitar.

Na nossa campanha, destacamos o Projeto Nacional como nosso lema central, focando especialmente na reindustrialização do Brasil.

A reindustrialização é essencial para reposicionar o país no cenário global. Estamos vivendo em um mundo competitivo entre grandes potências e blocos econômicos. Internamente, isso também está ligado à criação de empregos de qualidade, algo que apenas a indústria pode proporcionar.

A reindustrialização é crucial para combatemos o fascismo por meio da mobilidade social. Quando as pessoas veem oportunidades de ascensão social, elas têm esperança; o fascismo prospera em ambientes onde essa esperança falta. Portanto, esse é o núcleo do nosso projeto nacional na pré-campanha e é uma das únicas candidaturas a abordar esse assunto.

Miguel: Entendo. Historicamente, houve tentativas de implementar projetos de industrialização no Brasil, mas muitos economistas enfrentaram dificuldades em convencer a população sobre essa necessidade. Poderia nos dar exemplos concretos das indústrias que poderiam ser revitalizadas?

Elias: Muitas vezes se fala que o Brasil precisa entrar na quarta revolução industrial ou realizar grandes transformações. No entanto, acredito que isso não seja uma abordagem realista neste momento.

Penso que precisamos resgatar indústrias importantes como as do setor de defesa e metalmecânico. O país também deve revitalizar sua indústria pesada para fabricar trens e locomotivas. Além disso, devemos digitalizar nossa biodiversidade; atualmente exportamos bilhões em medicamentos enquanto temos insumos aqui mesmo.

Existem várias indústrias ligadas tanto à primeira quanto à quarta revolução industrial que podem coexistir no Brasil de maneira integrada. A questão da industrialização é vital para a sobrevivência da nação em um mundo onde precisamos criar entre 10 a 20 milhões de empregos industriais.

Esses empregos tendem a oferecer salários mais altos do que os frequentemente encontrados atualmente no Brasil, onde muitos trabalham por um salário mínimo ou pouco mais disso; isso gera uma sensação generalizada de desesperança entre as pessoas. Portanto, a reindustrialização se torna indispensável nesse contexto.

A industrialização deve responder às diversas demandas sociais – desde transporte eficiente até acesso gratuito a medicamentos.

Miguel: Vamos mudar um pouco de assunto e falar sobre geopolítica, já que isso está interligado com a questão da industrialização. O mundo enfrenta momentos críticos com movimentos imperialistas agressivos nunca vistos antes. Temos visto situações como o sequestro do presidente da Venezuela e ataques ao Irã, além da crise em Gaza. Como você acredita que isso impacta o Brasil e suas eleições?

A direita brasileira parece estar cada vez mais alinhada ao imperialismo; Flávio Bolsonaro recentemente fez declarações favoráveis aos Estados Unidos sobre recursos minerais brasileiros em seu discurso na CPAC. Qual sua análise sobre a atual geopolítica no cenário eleitoral brasileiro?

Elias: Este tema deveria ser central nas discussões políticas atuais! Pessoalmente, vejo uma polarização importante: temos um candidato à presidência abertamente favorável aos Estados Unidos.

Quando falamos dessa aliança com os EUA, estamos nos referindo à adesão à nova Doutrina de Segurança Nacional americana que busca garantir acesso privilegiado dos EUA às riquezas naturais da América Latina. Flávio Bolsonaro representa essa postura para nossa região; o imperialismo sempre teve seus interesses aqui no Brasil, mas agora eles estão mais explícitos do que nunca. Precisamos trazer isso para o debate eleitoral.

A esquerda ainda carece desse viés nacionalista e desenvolvimentista; isto torna sua posição peculiar no contexto global – quase como uma jabuticaba fora das normas capitalistas comuns – quando se apresenta sem essas características fundamentais. Devemos destacar dois candidatos opostos: Lula representa a defesa dos interesses nacionais enquanto outro candidato apoia abertamente os Estados Unidos.

A população brasileira é majoritariamente nacionalista; se eu for polarizar com a extrema direita – algo que faço frequentemente em meus vídeos – preciso deixar claro: a verdadeira contradição na sociedade brasileira gira em torno do projeto nacional versus fascismo; entre democracia e autoritarismo fascista. Precisamos reconhecer essa nova contradição emergente com clareza.

Miguel: Essa dicotomia entre projeto nacional e fascismo é interessante porque implica uma discussão mais ampla sobre democracia também – sabemos que há um modelo democrático debatível por aqui… É preocupante ver ataques ao Irã ocorrendo sem indignação generalizada enquanto países democráticos não observam seus valores ao lidar com situações assim – talvez devêssemos considerar parcerias com países como a China? Como você vê esses debates sobre democracia atualmente?

Elias: Este debate frequentemente se torna distorcido e raso demais. Para mim, democracia e ditadura são conceitos frágeis cujas definições dependem das particularidades econômicas e sociais de cada país.

No caso da China, existe um modelo democrático próprio baseado na participação direta nas aldeias desde tempos remotos; portanto, trata-se de uma forma específica de democracia chinesa.

A democracia liberal burguesa tem suas limitações e não atende mais às demandas contemporâneas das sociedades atuais. No Brasil defendemos não apenas as instituições democráticas existentes mas também reconhecemos sua importância para garantir regras mínimas dentro do nosso sistema político – sendo essencial evitar qualquer tentativa fascista nesse sentido.

No entanto, acredito que mesmo essa manutenção das regras atuais requer um projeto nacional robusto para assegurar seu funcionamento contínuo no futuro próximo

.

Caberá à próxima administração liderar essa transição rumo à formação de uma nova maioria política caracterizada pela esquerda nacionalista desenvolvimentista anti-neoliberal.

Miguel: Você critica as esquerdas pela perda desse caráter nacionalista essencial ao longo dos anos – qual seria seu diagnóstico sobre esse fenômeno? E como podemos reintegrar desenvolvimento e nacionalismo nas pautas da esquerda brasileira?

Elias: Vou expor algo polêmico: não existe esquerda fora do escopo do capitalismo periférico que não seja nacionalista ou desenvolvimentista — sem isso torna-se difícil argumentar legitimamente sobre ser parte dessa corrente ideológica.

No Brasil esse desvio ocorreu especialmente após o fim da União Soviética quando houve um vácuo significativo pela esquerda política local resultando no declínio dos Estados nacionais-desenvolvimentistas — isso criou espaço tanto para críticas sociais infrutíferas quanto para interpretações errôneas acerca das desigualdades oriundas desse período histórico específico.

A crítica ao modelo desenvolvimentista acabou ignorando suas conquistas materiais apesar das contradições inerentes — essas estruturas foram essenciais para superarmos diversas adversidades estruturais enfrentadas ao longo dos anos passados!

A destruição deste estado desenvolvimentista foi desastrosa por vários motivos — não aproveitar tal legado foi um erro estratégico colossal feito pela esquerda contemporânea cujo impacto ainda se faz sentir fortemente hoje!

Soma-se a isso outra questão: muitos intelectuais progressistas fugiram para fora durante os anos 70/80 deixando nossa discussão interna empobrecida culturalmente — voltaram trazendo visões neoliberalizantes importadas pelas experiências norte-americanas — tornando nossa própria narrativa confusa frente aos novos desafios impostos pela realidade contemporânea!

(…)