O presidente Lula (PT) minimizou o cenário de empate técnico com Flávio Bolsonaro (PL) registrado por pesquisas recentes e afirmou confiança em vitória na eleição presidencial. Em entrevista ao podcast Desce a Letra Show, o presidente disse não orientar sua campanha por levantamentos de intenção de voto e atribuiu o acirramento da disputa a um ambiente político marcado, segundo ele, pelo avanço da extrema-direita, pelo ódio e pela disseminação de desinformação.
A entrevista ocorre num momento de estreitamento real da disputa. O Datafolha de 11 de setembro mostrou Lula com 46% contra 44% de Flávio no segundo turno, diferença dentro da margem de erro de dois pontos, já registrada por este site. A Quaest de 14 de setembro chegou a colocar Flávio numericamente à frente, 42% a 40%, também dentro da margem. O BTG/Nexus, na mesma semana, apontou Lula com 47% contra 46%.
Questionado sobre esse cenário, Lula comparou a disputa atual às campanhas presidenciais anteriores. “O Brasil vive um momento diferente de outros momentos. Antigamente você fazia uma campanha disputando com o PDT, PSD, PMDB, PSDB, com Serra, com Alckmin. Era outro nível da política. Tinha rivalidade mas não tinha ódio. Hoje é ódio e mentira. E a mentira voa e a verdade engatinha. Para falar a verdade você tem que construir a narrativa da verdade. Para mentir, não.”
O presidente relacionou o fenômeno brasileiro a um movimento internacional de fortalecimento de correntes de extrema-direita, apontando Donald Trump como principal referência dessas forças. “A segunda coisa que está acontecendo é um movimento mundial de crescimento da extrema-direita no mundo inteiro, que tem hoje como referência o presidente dos Estados Unidos. Ele é o grande guru da extrema direita e tem tentado fomentar isso em várias partes do mundo, na Ásia, na América Latina, na Europa… E temos que enfrentar isso com muita sabedoria.”
Lula defendeu que o enfrentamento eleitoral deve se dar no campo da disputa de narrativas: “Sempre acho que vamos ganhar essa disputa fazendo a verdade derrotar a mentira. Porque a verdade tem um tempo, tem perna curta. Se a gente souber construir a narrativa correta a gente vai dar um show neles.” Apesar da aproximação de Flávio nas pesquisas, reiterou não considerar os levantamentos determinantes para sua atuação. “Eu, sinceramente, não vejo como não ganhar essas eleições. Eu não sou movido a pesquisa, nem quando estou bem, nem quando estou mal. Eu sou movido a trabalho. Eu tenho uma meta e vou trabalhar. E por tudo que fizemos, tenho certeza que vamos ganhar as eleições. Essa é a minha tranquilidade.”
O Datafolha de 11 de setembro traz recortes que ajudam a entender a origem do empate: Lula lidera entre eleitores de renda mais baixa, mulheres e católicos, e mantém seu melhor desempenho no Nordeste. Flávio tem vantagem entre faixas de renda mais altas, homens e evangélicos. Nos índices de rejeição, os dois candidatos aparecem empatados: 46% dos entrevistados afirmam que não votariam em nenhum dos dois em qualquer hipótese.
A fala de Lula ocorre num momento em que a campanha petista já vinha ajustando o tom depois do avanço de Augusto Cury nas pesquisas, documentado por este site em múltiplas rodadas. Ao mesmo tempo em que minimiza publicamente o peso das pesquisas, o presidente segue direcionando parte de seu discurso à disputa de narrativa que ele mesmo descreve como decisiva para o resultado de outubro.
