A pobreza voltou a crescer na Argentina de Javier Milei. A consultoria ExQuanti calcula que 1,7 milhão de pessoas caíram abaixo da linha de pobreza entre o segundo semestre de 2025 e o primeiro de 2026, elevando o total de 13,4 milhões para 15,1 milhões de argentinos.
Se a conta partir do último trimestre de 2025, quando a curva mudou de direção, o acréscimo chega a 2,9 milhões de pessoas. O próprio governo admite que a taxa deve ficar entre 30% e 31% no primeiro semestre de 2026, contra 28,2% no semestre anterior.
Os números foram reunidos pelo jornal argentino El Economista, a partir de levantamento do La Nación com consultorias e universidades. O dado oficial sai em 24 de setembro de 2026, quando o Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC) divulga a Pesquisa Permanente de Domicílios (EPH) da primeira metade do ano.
Confirmada a projeção, será a primeira alta semestral da pobreza desde que Milei assumiu, em dezembro de 2023. O indicador vinha em queda forte desde o pico do início do mandato.
Governo Milei admite a alta e chama de temporária
Fontes do governo reconheceram ao La Nación que esperam uma subida de dois a três pontos percentuais e a atribuem à “inflação pós-ruído eleitoral”, que teria pressionado o dólar e chegado aos preços com atraso. Para a Casa Rosada, o fenômeno é passageiro e reforça a necessidade de manter o programa econômico atado ao superávit fiscal.
Os analistas ouvidos pelo jornal veem uma tendência, não um soluço. Martín González Rozada, econometrista da Universidade Torcuato Di Tella, projeta 31,6% de pobres entre janeiro e junho de 2026.
“A pobreza deixou de cair e tendeu a aumentar já desde o último trimestre do ano passado”, disse ao La Nación Agustín Salvia, coordenador do Observatório da Dívida Social da Universidade Católica Argentina (UCA). Segundo ele, o primeiro e o segundo trimestres de 2026 mantiveram o movimento e o terceiro não deve ser diferente.
A estimativa mais branda vem de Jorge Colina, diretor do instituto Idesa, que situa o índice entre 29% e 30%. Ele aponta que os salários informais dos lares mais pobres evoluíram abaixo da média, embora considere a variação pouco significativa.
Emprego e renda travam a recuperação
O emprego privado com carteira acumula 13 meses seguidos de queda, segundo o Sistema Integrado Previdenciário Argentino (SIPA). A recuperação da renda real dos trabalhadores, que sustentou a queda da pobreza em 2025, perdeu força a partir do terceiro trimestre daquele ano e está praticamente estagnada.
Em agosto de 2026, as cestas que definem as linhas de pobreza e de indigência subiram acima da inflação geral. A ExQuanti calcula que a renda média real dos ocupados no primeiro trimestre de 2026 ainda estava 13% abaixo do nível do terceiro trimestre de 2017.
O preço do superávit é pago em dólar
O superávit fiscal que o governo exibe como troféu convive com um endividamento em moeda estrangeira que a Argentina não via há décadas. A dívida externa bruta do país alcançou US$ 321,8 bilhões em 31 de março de 2026, o equivalente a 46,9% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o INDEC.
Milei recorreu ao Fundo Monetário Internacional (FMI) em 2025 e a uma linha de socorro de US$ 20 bilhões do Tesouro dos Estados Unidos para honrar vencimentos. Cada dólar dessa conta é dívida que o país precisa pagar numa moeda que não emite.
O contraste com o Brasil é direto. A dívida pública brasileira é grande, mas quase toda emitida em reais, o que dá ao Tesouro Nacional folga e soberania que Buenos Aires não tem.
A fórmula argentina chega à campanha de Flávio Bolsonaro
Em 14 de setembro de 2026, a coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), Daniella Marques, anunciou que o programa do candidato seguirá o roteiro de Buenos Aires. “Vamos nos inspirar nas reformas que Milei fez”, afirmou a ex-presidente da Caixa Econômica Federal no seminário Brasil Hoje, da Esfera Brasil, em São Paulo.
Ela chamou o presidente argentino de “um ótimo exemplo em termos de voltar a ter capacidade de investimento” e detalhou o pacote. A equipe já mapeou mais de mil normas para revogar e prevê uma emenda constitucional de ajuste fiscal ainda no período de transição.
A promessa vem embalada por 13 meses de queda no emprego formal, renda travada e 1,7 milhão de novos pobres em seis meses do outro lado da fronteira. O eleitor que ouviu Daniella Marques na segunda-feira, 14 de setembro de 2026, tem dez dias para comparar o discurso com o boletim que o INDEC publica em 24 de setembro.
