O presidente Lula (PT) afirmou nesta quarta-feira (16) que o material extraído do celular do banqueiro Daniel Vorcaro representa, em suas palavras, “orgia pura”, e que a perícia em andamento no STF deve expor uma rede de relações pessoais e financeiras entre autoridades e o ex-controlador do Banco Master. A declaração foi dada em entrevista ao canal Desce a Letra Show.
Ao comentar o acesso de oito ministros aos dados do aparelho, Lula fez uma previsão direta sobre o conteúdo que pode vir à tona. “Acho que o que está acontecendo na Suprema Corte não é uma coisa boa, porque significa que aquele mafioso chamado Vorcaro envolveu todo mundo. Ele envolveu todo mundo. Agora, que o celular dele está nas mãos de oito ministros, do Zanin, do Gilmar, do companheiro Flávio Dino… Agora a gente vai saber quem é que estava com mulher, quem foi fazer suruba… Foi isso que aconteceu: orgia pura. Está todo mundo na expectativa. Tem gente famosa que era o gerenciador, que era o cafetão da turma. Tudo isso vai aparecer agora.”
O presidente defendeu apuração rigorosa, mas com garantias processuais para todos os envolvidos. “É importante que apareça para a gente poder limpar esse país. A Suprema Corte não pode ter sua vida manchada. Ela é a instância máxima de poder nesse país. Quando ela toma uma decisão ninguém pode mudar. Então é importante que se apure, dê direito de defesa às pessoas, a presunção de inocência tem que ser para todo mundo. Mas é preciso apurar. Ninguém está acima da lei. Nem eu, nem o Fachin e nem nenhum ministro da Suprema Corte.”
Sobre a origem do Banco Master, Lula rejeitou qualquer tentativa de associar sua gestão à crise, atribuindo a criação da instituição ao período de governo anterior. “O que não dá é para a sociedade ficar assistindo a esse denuncismo: ‘fulano pegou não sei quantos milhões’, ‘o filho de não sei quem’, ‘o pai de não sei quem’, ‘a mãe de não sei quem’. E a sociedade atônita ouvindo tudo isso todo santo dia? Então o presidente Fachin tem a responsabilidade de não permitir que isso atrapalhe o processo eleitoral. Porque as pessoas que criaram o banco do Vorcaro foram eles. O Banco Master foi eles que criaram. E foi criado quando o Roberto Campos Neto era presidente do Banco Central, indicado por ele [Jair Bolsonaro].” Reivindicou para o próprio governo a liquidação da instituição e a prisão de Vorcaro: “Quem acabou fomos nós. Nós acabamos com o Banco Master. Nós prendemos o banqueiro deles, porque era um ladrão e deu um golpe de R$ 60 bilhões nesse país. Agora a gente tem que apurar com muita seriedade. Quem tem culpa tem que pagar.”
O presidente também mirou diretamente Flávio Bolsonaro, retomando o financiamento do filme Dark Horse já documentado por este site em múltiplas matérias. “Por isso que o Flávio está nervosinho, porque vão aparecer todas as falcatruas dele com o Vorcaro, o churrasco, as bebidas, as mulheres, e os R$ 130 milhões que ele pegou do Vorcaro para financiar o filme do pai.” O valor citado por Lula é próximo ao apontado por Mendonça em despacho de julho, que registra negociação direta de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, entre Flávio e Vorcaro para a produção da cinebiografia.
Apesar do tom crítico ao ambiente institucional, Lula reafirmou apoio à atuação de Alexandre de Moraes, mesmo em meio à crise que envolve o ministro no próprio caso Master. “Aquele debate ontem na televisão, eu assisti uma parte, não é correto. Eu continuo admirando as pessoas que trabalham, acho que o Alexandre de Moraes fez um trabalho extraordinário para garantir a democracia no Brasil prendendo o Bolsonaro e os golpistas.”
O presidente encerrou defendendo reformas estruturais no Judiciário e no sistema político como resposta ao desgaste institucional em curso. “Vamos fazer uma reforma no Judiciário. A partir de agora acho que é inevitável, não tem como não discutir isso. Não é uma coisa feita de forma precipitada, mas a gente precisa começar a pensar a fazer reformas nas instâncias do Judiciário, porque tem muita queixa e a imagem não está boa.” E foi além, estendendo a crítica ao próprio sistema partidário: “Eu só peço isso. Eu estou indignado porque a sociedade brasileira não merece isso. Estou confiante de que vamos encontrar uma saída, apurar, punir quem tiver que punir e começar a discutir uma reforma no Judiciário, que tem que ser acompanhada de uma reforma na política também. Porque a política também está muito apodrecida no Brasil. Quem está falando é um cara que já foi presidente três vezes. A política está apodrecida. Eu voltei 15 anos depois e a política está bem pior do que estava.”
