Frei Betto afirma: ‘Sucessor de Lula será decidido por um processo social, não por ele

Na manhã seguinte à confirmação da vitória de Lula, em 25 de outubro de 2026 — um marco inédito ao garantir seu quarto mandato presidencial — o frade dominicano Frei Betto participou do programa Conversa Bem Viver, transmitido pelo canal Brasil de Fato. Em sua análise, ele não se limitou a comemorar, mas fez um diagnóstico contundente: a conquista vai além de uma figura individual, representando uma explosão social que demanda uma reconstrução profunda — englobando desde as comunidades marginalizadas até a solidariedade global.

Frei Betto destacou que o futuro político não será determinado apenas nas esferas institucionais, mas sim nas ruas e nas redes sociais. Ele afirmou: ‘Não, creio que é um processo social que se manifesta. Lula surgiu das greves do ABC no final dos anos 70 e início dos 80. Hoje, temos o exemplo de Janones, que ninguém mencionava há seis meses, e ele não pertence nem ao PT nem ao PSOL ou à Rede.’ Sua declaração transcende a figura de André Janones; trata-se da ascensão de novas lideranças fora dos caminhos tradicionais, impulsionadas por uma mobilização juvenil intensa que redefiniu os rumos do segundo turno. Esse ‘Exército do Lula’, organizado virtualmente e presente fisicamente nas periferias, conseguiu reverter resultados em cidades que no primeiro turno haviam apoiado Flávio Bolsonaro.

Entretanto, essa energia não deve ser vista apenas como um recurso para fins eleitorais. Frei Betto adverte contra a tendência de reduzir o social a meras ações assistenciais: ‘É fundamental também promover capacitação e desenvolver a consciência crítica dos adultos beneficiados. Essa é apenas uma das muitas tarefas que temos pela frente. Além de focar na questão social, é essencial que essa abordagem venha acompanhada de uma pedagogia voltada para a formação da consciência crítica, pois caso contrário cai na armadilha da caridade.’ A menção explícita ao educador Paulo Freire enfatiza a urgência de transformar assistência em autonomia e empoderamento popular por meio da educação.

O frade faz um diagnóstico severo sobre o vazio deixado pela esquerda institucional. Após décadas de vitórias, observou-se um desmantelamento silencioso da base: ‘Sem dúvida alguma houve um afastamento. Perguntamos: onde está a CUT? E a UNE? Onde estão os sindicatos? Tudo desapareceu.’ Essa questão não é retórica; representa uma constatação de falência estrutural. O distanciamento das periferias e a burocratização dos partidos progressistas, juntamente com o surgimento de uma ‘esquerda caviar’, composta por intelectuais desconectados da realidade cotidiana, criaram um cenário propício para o avanço da extrema-direita bolsonarista. Frei Betto enfatiza: ‘Não podemos subestimar o bolsonarismo. É uma força política significativa. Apesar dos escândalos e crimes associados a esse grupo, ainda possuem milhões de apoiadores, o que é alarmante.’

A inquietação se amplia em um contexto internacional quando Frei Betto direciona seu olhar para Cuba — país que tem recebido apoio significativo de nações como a China através da adaptação à energia solar, embora ainda enfrente grandes desafios energéticos. No entanto, ele destaca como o bloqueio norte-americano agrava essa situação: ‘A vitória do Lula trouxe alívio para Cuba. Brasil e México têm sido solidários à Revolução Cubana e ajudam a atenuar o sofrimento do povo cubano, que está sendo sufocado principalmente pelo governo Trump.’ Ao mencionar Donald Trump e Marco Rubio, ele nomeia claramente os agentes imperialistas responsáveis pela limitação do fornecimento energético (40 mil barris refinados por dia contra um consumo total de 100 mil), provocando apagões frequentes e acelerando a fuga dos jovens qualificados do país. Nesse contexto, a solidariedade brasileira é muito mais do que um gesto diplomático; trata-se de uma resistência ativa.

Dessa conversa emerge não um discurso triunfalista simples, mas sim um conjunto urgente de responsabilidades: reconstruir as bases com uma pedagogia freireana; organizar coletivamente a juventude que foi protagonista dessa mudança; abandonar a lógica da caridade em favor da construção da consciência crítica; e assumir sem hesitações o compromisso internacionalista com os povos sob cerco — especialmente Cuba. A vitória de Lula não encerra as lutas; ela abre uma oportunidade histórica para reorganizar a esquerda — não como uma burocracia partidária, mas sim como um movimento social capaz de gerar novas lideranças e ideias inovadoras para resistir. Como Frei Betto ressalta, o processo social não espera convites; ele exige presença ativa, formação contínua e comprometimento — aqui e agora, além das fronteiras.